21 abril 2008

Dançando para Deus (Segunda Parte)


Justino, o Mártir (morto em 165 d.C) teria escrito em Questiones: “Que os pequenos não cantem sozinhos, mas junto com instrumentos musicais e danças...” Clemente de Alexandria cita, àqueles que quisessem conhecer o mistério da fé cristã, uma dança ao redor do altar da ceia. E nessa dança também estão presentes os anjos. Essa presença da dança dos anjos na Santa Comunhão é afirmada por Dionísio, bispo de Atenas, Crisóstomos, Orígenes e Ambrósio. É bom lembrar que temos nas liturgias de igrejas históricas essa idéia do louvor dos anjos aparecendo quando o oficiante diz, anunciando o Sanctus: “Portanto, com os anjos e arcanjos e com toda a companhia celeste, louvamos e magnificamos o teu glorioso nome, dizendo: (congregação) Santo! Santo! Santo”!
Eusébio cita os cristãos dançando e cantando hinos à “Deus, o Rei dos reis”, para celebrar as vitórias de Constantino, o Grande. Epifânio (nascido em 315 d.C), num sermão no Domingo de Ramos, convida os cristãos dançarem diante do Rei que se aproxima. Basílio, o Grande, Bispo de Cesaréia (viveu entre 344 e 407 d.C.), também cita as danças cúlticas, mas condena movimentos indecentes e frívolos. Ambrósio, Bispo de Milão (viveu entre 340 e 397 d.C.), escreveu contra uma pessoa que, na época, mantinha que a igreja não deveria permitir a dança no culto, e Ambrósio ainda dá a entender que os catecúmenos, que iam ser batizados, se aproximava da fonte batismal dançando. Ele, entretanto, só defende a dança que é virtuosa, honrada e que parta do temor a Deus, pois assim será um testemunho da graça divina. Crisóstomo, por sua vez, afirma que um dia iremos dançar em roda com os anjos no Paraíso e cita a dança em cerimônia de casamento cristão.
“As danças na Igreja Primitiva eram, em sua maioria, danças corais e de roda, provavelmente sempre acompanhadas do canto de hinos e salmos”. E especialmente a partir do século IV, a dança na igreja começa a sofrer com usos e deturpações que levaram até mesmo à sua proibição.
Mas como proibir algo tão vividamente presente no ser humano? Ao olhar o frevo bem dançado, o alegre samba, a formalidade e respeito das danças de salão, as danças de roda, o coco, a ciranda com a ingenuidade e honestidade infantis, como negar tão rica expressão ao se colocar o pé no salão da Igreja? Não há como! Podemos até fechar os olhos e procurar nas tradições e no legalismo revestido de sobriedade, razões para tal negação. No entanto, como então encarar Paulo que diz: “Fiz-me de tudo para com todos”? Quem sabe se fez dançarino também?
Numa pequena congregação luterana em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, um dia, ao pensarmos numa cantata de Natal, surgiu a idéia de incorporar alguns movimentos coreografados durante algumas canções. Não foi preciso perguntar uma segunda vez. Todos aceitaram e hoje há um grupo de dança litúrgica na congregação. Afinal, algo tão enraizado na cultura nordestina brasileira só precisava achar espaço e ocasião para se manifestar. E apesar dos temores e das críticas de alguns, a dança litúrgica fez brotar sorrisos de crianças e idosos.
Um parêntese: Que maravilha foi ver as crianças da igreja querendo imitar os gestos da dança litúrgica, gestos de louvor a Deus! Gestos de louvor a Deus talvez ocupando um espaço antes preenchido por danças fúteis e cheias de sensualidade adulta, ao som de canções com letras vazias e muitas vezes perniciosas (tão divulgadas em nossos meios de comunicações de massa).
A dança pode assumir espaços importantes nas igrejas. O primeiro, como na igreja primitiva e como no exemplo de Davi, é o louvor. Que inspirador é ver um grupo de cristãos usando todo o seu corpo, e não apenas as pregas vocais, para demonstrar sua adoração ao Deus que lhes deu vida, que se fez carne e habitou entre nós! Como um coral, a dança pode nos ajudar a expressar a alegria da salvação de uma maneira contagiante, e nos remeter o olhar para o alto (Cl 3,2), para a festa eterna da vida!
Outro espaço para a dança é o da evangelização, do testemunho. Com coreografias significativas, a dança pode nos ajudar a falar sobre justiça e opressão, riqueza e pobreza, tristeza e alegria. Afinal, qual arte não o faz em algum momento? A denúncia dá espaço então ao testemunho sobre o melhor e único Caminho.
Numa sociedade que a imagem é tudo, a dança encontra amplo espaço por sua simplicidade e apelo visual. Por que não usá-la, se não pode trazer ao ser humano uma imagem do verdadeiro Bem, do que realmente importa, num universo de imagens fúteis e que levam à individualidade? Nada mais verdadeiro e propício do que trazer à mensagem, a boa notícia, a notícia alegre do evangelho, através de um veículo tão alegre, e até lúdico, que é a dança.
Sendo cristãos, temos um sacerdócio que não se limita aos quatro cantos de um templo, mas que perpassa a nossa vida em comunidade e a nossa cultura. É com a nova natureza, que recebemos após sermos sepultados com Cristo no batismo (Cl 2,12), e ressuscitados com ele (Cl 3,1), que podemos ser sábios o suficiente para usar, da melhor forma possível, tudo o que somos e temos, no amor uns aos outros e a Deus. Sábios também para usar a dança.
Ao olhar para o alto, como aconselha Paulo, imagino Jesus nos preparando lugar. E me lembro do grande amor com que nos amou se tornando gente, sofrendo, sendo humilhado, negado pelos seus. Um amor que enfrentou a morte injusta, para que nós, tão pequenos, imperfeitos e injustos, sejamos aceitos por Deus, perdoados. Lembro-me do filho pródigo voltado e sendo abraçado, festejado por seu pai. Lembro-me de Jesus prometendo vida em abundância. E lembro-me de Jesus dizendo, ao me trazer mais uma vez para perto dele, me perdoando, que tem festa no céu (Lc 15.10)
Não dá vontade de dançar?


Fernado Henrique Huf. Artigo do livro Pastoral Urbana; A co-responsabilidade das igrejas no Nordeste. Lançado pela Editora Ultimato.

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