12 abril 2008

Dançando para Deus


Estarei postando um artigo do pastor luterano Fernando Henrique Huf. O artido trata sobre a dança na igreja. Acho esse um momento muito propício para conhecermos um pouco mais do tema. Como o artigo é um pouco longo para um blog, publicarei em duas vezes.

Dançar... Uma profusão de sentimentos expressos fisicamente, tosca ou graciosamente. Movimentos que se alternam, se desenvolvem, se explicam ou nos confundem. Gestos largos, românticos e épicos de um balé ao som orquestral. Gestos ritmados no forró. Da delicadeza das danças tradicionais sino-japonesas à explosão nada ascética, pouco estética, das danças tribais. Dançar...
Bater o pé ao som de um tambor... Seja o tímpano numa sinfonia de Beethoven ou o surdo de pele de cabra pelas ruas do Pelourinho.
Dançar... O movimento que nos enleva ora para o caos, ora para o céu.
Dançar... Balançar e fechar os olhos ao som da valsa nupcial. O bebê que encontra carinho no balanço do colo maternal que o faz adormecer tranqüilo. Balanço materno. Nana neném...
Dançar... No bater de palmas ao cantar-se o hino religioso; o erguer as mãos como se as nuvens em movimentos dançassem para o Salvador tão desejado. Esperado. Amado.
Não sou bailarino nem coreógrafo. Sou pastor. Confesso, nunca aprendi a dançar direito. As breves experiências adolescentes no interior do Paraná apenas reservaram um pequeno acervo de danças regionais, folclóricas, que me dariam a certeza – não sei dançar. Mas dizer que não se sabe dançar é negar uma expressão tão vividamente humana, tão presente no dia-a-dia, como o é também a música. Cotidianamente intrigante, a dança, assim como outras artes e formas de expressão, muitas vezes causa inquietação. Inquietação por nos levar a uma auto-revelação, uma forma prazerosa de expressar quem somos, o que sentimos – nossas dúvidas, medos e anseios; até nossa imperfeição. E o temor desse prazer extravasar e fugir ao nosso controle nos assusta com a possibilidade da queda. Não a queda do salão (vergonhosa, mas sem grandes conseqüências). Mas a perda do controle, do ir além das fronteiras, da falta de domínio próprio. E alguns, como eu, preferem então não se expor (ou por medo da exposição em si, ou por medo da queda).
Essa luta interna que acontece na dança revela outra: a luta diária do cristão. Será que isso agrada a Deus? Ou só a mim? Uma reflexão precipitada sobre a dança e baseada no medo da lei de Deus (como se “ordem e decência” significassem ausência de movimento), poderia nos levar a um ascetismo precipitado, perigoso. Precipitado porque foi “para a liberdade” que Cristo nos libertou, e perigoso porque nos levaria a uma repressão da nova vida, nova natureza, novo nascimento, novo nascimento, nova criatura, que recebemos de Deus em Cristo Jesus e que se volta em louvor e adoração a esse Deus. Porque, como alguém disse: “Nele vivemos e nos movemos, e existimos” (At 17,28).
A dança sempre ocupou lugar de destaque em muitos ritos de costumes religiosos de vários povos, desde os egípcios até os germânicos. Havia entre muitas práticas pagãs, por exemplo, a dança do faraó aos deuses, a dança dos mortos e das oferendas, o bater de palmas com danças em ritos de povos germânicos (sem contar as danças mitológicas de elfos, duendes e gigantes).
Entre os israelitas, a dança também se fazia presente e temos a bem-conhecida passagem de Davi dançando “com todas as forças diante do Senhor, com júbilo” (II Sm 6,12ss), numa espécie de dança cerimonial, ao levar a arca de Deus para Jerusalém.
Após a libertação de Israel do Egito, a alegria leva à dança (Ex 15,20). A alegria levava o povo a dançar, fosse nas festas populares, nos casamentos, fosse por agradecimento e louvor nas conquistas (I Sm 18,6-7; Sl 87,7; 149-1-3)
No Novo Testamento, “num estágio inicial, possivelmente tão cedo quanto o estabelecimento da comunidade cristã, a dança era descrita como uma das alegrias celestiais e como parte da adoração da divindade pelos anjos e pelos salvos” (Backman, 1952).
Naturalmente, a dança não estava restrita aos cristãos ou israelitas. A dança, como parte da cultura de uma nação ou de um grupo, não pode ser confinada. E também, desde cedo, ela foi usada para ritos de seitas como os maniqueus, por exemplo...
Continua...

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