03 abril 2008

Acolhimento sem preconceitos


Na Galiléia um leproso se aproxima de Jesus. Como afirma Mateos e Camacho, ele é “caso extremo e o protótipo da marginalização religiosa e social imposta pela lei” (Lv. 13,45). Conforme os ensinamentos da época esse homem era considerado impuro, por isso estava fora da sociedade e também fora do reino de Deus. Não podia participar de atos religiosos, e a pessoa que tocasse nele também ficaria impura. Isso o obrigava a viver em lugares desertos, longe de todos e de tudo.
Entramos nos ônibus da grande Fortaleza e encontramos crianças, mulheres, jovens, senhores e senhoras repetindo uma frase que parece que há tempo já foi ensaiada e que em coro chega aos nossos ouvidos: “desculpe estar interrompendo o silêncio de sua viajem, eu poderia estar roubando, matando, me prostituindo, mas estou aqui pedindo a sua ajuda...” Parece engraçado, mas na realidade é que essas pessoas parecem reconhecer que sua vida é na miséria, na criminalidade, na prostituição, mas que não têm o desejo de continuarem nessa vida. Saímos da cidade e chegamos ao sertão nordestino, olhamos nos olhos do sertanejo e vemos um olhar de cansaço, mas ao mesmo tempo de determinação. Mãos calejadas pela insistência de arar a terra esperando que este ano seja melhor do que aquele que passou. Pessoas que em suas vidas se assemelham ao leproso do texto lido. Abandonados pela sociedade, rejeitados por muitos, e que agora tentam clamar pedindo ajuda.
Onde está a igreja? Realizando a sua missão e indo ao encontro dessas pessoas? Muitas vezes não! Mas encontramos em Jesus atitudes que devem ser imitadas para que a missão de levar as boas novas a todas as pessoas seja cumprida. Do encontro de Jesus com o leproso, a parti desse momento tiraremos lições para que se realize o encontro da igreja com nordestino, que tem sua cultura própria, sua maneira de falar e pensar inconfundíveis, que é vítima de preconceitos, mas acima de tudo é povo Forte.

1. Acolhimento sem preconceitos

A primeira lição que podemos tirar deste encontro de Jesus com o leproso é o acolhimento.
O leproso conhecia a lei, sabia que não poderia se aproximar de ninguém, ou mesmo, se alguém se aproximasse dele, ele deveria gritar bem alto: impuro, impuro. Conhecendo tudo isso ele se aproxima temeroso, o autor do evangelho diz que o leproso aproximando-se de Jesus suplica-lhe de joelho. A sua angústia é maior do que seu medo de violar a lei. Ele necessita ir ao encontro deste “mestre” que curava as pessoas, expulsa os demônios, ao encontro do “mestre” que todos buscavam (Marcos 1,7). O pedindo dele, não é para ser curado, mas para ser limpo, declarado puro. A idéia é que a sua doença era causa de todo o preconceito que tinham contra ele, por isso, muito mais do que ser curado, ele precisa ouvir, daquele que como sacerdote era o representante de Deus: Eu o declaro limpo. Porque sendo limpo, novamente ele seria gente, pessoa, um ser humano.
E quantos de nossos conterrâneos nordestinos não têm este mesmo sentimento, que a causa de todo o seu sofrimento é culpa dos seus próprios erros. Para exemplificar basta lembrarmos da música cantada pelo cantor nordestino Luiz Gonzaga, chamada Súplica Cearense:
Oh, Deus perdoe este pobre coitado; que de joelhos rezou um bocado; pedindo pra chuva cair sem parar; Oh, Deus, será que o Senhor se zangou e por isso o sol se arretirou; fazendo cair toda a chuva que há;... Oh, Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe; eu acho que a culpa foi; desse pobre que nem sabe fazer oração... Oh Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água; E ter-lhe pedido cheinho de mágoa; pro sol inclemente se arretirar.
O leproso diante de Jesus não foi mandado embora, ao contrário, foi acolhido sem nenhum preconceito, independentemente do que dizia a lei. A igreja hoje, que está sob a autoridade de Jesus, e que deve ser anunciadora das boas novas também tem que aprender a ser acolhedora. Deve aprender a acolher aqueles que foram tantas vezes marginalizados. Não é nossa obrigação agradar a homens, nossa tarefa é anunciar as boas novas. E o que é o acolhimento, se não aceitar as pessoas do jeito que elas são, e não falo aqui que não precisa haver uma transformação de vida, mas deve existir uma transformação vinda do alto, e não daquilo que achamos ser um dogma inquestionável e que muitas vezes não tem nada a ver com a vontade Deus.

2. Renovação de nossas idéias

Diante desses fatos para que haja acolhimento é necessário que haja uma renovação de nossas idéias. E esta a segunda atitude que precisa ser levada em consideração no encontra da Igreja com o povo nordestino: A Renovação de nossas idéias.
Jesus não apenas deseja que o leproso seja limpo, mas também toca no leproso. A lei não permitia nem que ele falasse, um toque seria algo inimaginável, mas mesmo assim, Jesus rompe com todos os preconceitos e barreiras existentes e mostra o toque de um Deus de amor, renovando os conceitos da lei. O texto é embalado de emoção, é súplica da parte do leproso, compaixão da parte de Jesus, e agora também irritação, advertindo o leproso severamente e ordenando-o que cumprisse o que ordenou Moisés, para que servisse de testemunha aos sacerdotes. A irritação de Jesus se dirige contra a ordem simbólica de pureza da qual esse homem é vítima, daquele que detinham o poder e declarava quem era e quem não era impuro.
Jesus se irrita contra uma sociedade que não cura, que não dá vida as pessoas, mas que as excluem. Uma sociedade que só sabe declarar quem pode e não pode participar da vida social. Em Jesus encontramos um Deus amoroso, que se opõem ao Deus duro e exigente da sociedade judaica. O Reino de Deus tinha chegado e todos aqueles que agiam de maneira arbitraria e sem amor seriam julgados.
Precisamos renovar os nossos conceitos na igreja. Parar um pouco de dizer o que as pessoas não podem fazer e ensina-las o que deve ser feito. Não somos juízes entre as pessoas, mas observadores e praticantes da lei do amor de Deus. Como os sacerdotes da época de Jesus excluíam os leprosos, temos a doce mania de excluir qualquer um que se coloque contrário ao nosso pensamento, pois nas nossas cabeças certos tipos de pessoas não atende às exigências para participar do Reino de Deus.
Lembro de um caso no interior do Nordeste, onde o líder de uma igreja criou um grande constrangimento ao desligar o som, porque o ritmo que tava sendo tocado era forró e o forró nada tem a ver com que Bíblia ensina e isso era um grande pecado. São essas pequenas coisas que precisamos renovar em nossas mentes e corações. E como diz o pastor Kleber, da primeira IPI de Natal: “De cada canto da terra Deus quer o louvor melhor, por isso eu creio no céu, vou louvar com forró”. Precisamos anunciar o evangelho, as boas novas, sem querer oprimir ou minimizar as expressões culturais de um povo. Somos a Igreja de Jesus Cristo no Nordeste, então somos uma igreja nordestina e devemos nos orgulhar disso.

3. Pessoas Acolhidas Tornaram-se Testemunhos Vivos da Obra de Deus

Grande é a alegria do leproso. Ele sai a espalhar tudo o que tinha acontecido com ele, desobedecendo à instrução de Jesus para que não contasse a ninguém. Ele estava limpo, fora declarado puro, agora ele é gente, poderia participar da vida pública, entrar no templo, se aproximar das pessoas sem precisar se humilhar dizendo alto que era impuro. Ele se torna um testemunho vivo e alegre da ação de Jesus que produz vida, anunciando as “boas novas” de alegria. Agora Jesus não pode mais entrar na cidade, afinal ele tinha tocado um homem impuro.
Mas se observarmos o texto acontece algo interessante. O texto nos diz que todos vão ao encontro de Jesus. Antes era só o leproso, agora são todos. A vida está em Jesus, não no templo, na periferia, não no centro de Jerusalém. O amor de Deus alcança a todos, em Jesus as pessoas são ouvidas, tocadas e curadas.
É essa alegria que pessoas sentem quando são acolhidas com amor. Conhecerão a Jesus e terão as suas vidas transformadas. O leproso saiu a espalhar aquelas pessoas tudo que tinha acontecido, agora imagine o número de pessoas que ao sentirem o toque de Jesus sairão a falar do seu amor e de todos os milagres que lhes aconteceu.
Um nordestino quando tem sua vida transformada e é indagado por outro o que aconteceu, ele não vai dizer que agora mudou seus conceitos teológicos, pois se tornou adepto das idéias da Reforma Protestante do Século XVI e agora crê na obra salvífica de Jesus Cristo. Ao contrário, ele vai abrir um sorriso e dizer: “Oxente, menino, agora eu sou é crente”!

Conclusão

E assim a igreja estará realizando a sua missão. Igualmente a Jesus, acolhendo aqueles que necessitam, renovando idéias que estão ultrapassadas e que mais são motivos para oprimir os mais fracos. E acima de tudo, gerando vidas que testemunharão intensamente do amor de Deus.
A maior alegria é que podemos fazer isso com o nosso jeito nordestino de ser. Porque Deus chamou para realizarmos uma grande obra, que é anunciar as boas novas de salvação. Não é pecado termos nascidos aonde nascemos, é providência de Deus para que ali anunciamos o seu amor. Louvemos a Deus em cada cultura.
Quero concluir com uma parte do poema do cearense Patativa do Assaré:
Poeta, cantô da rua,
Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua
Que eu canto o sertão que é meu
Se aí você teve estudo,
Aqui, Deus me ensinou tudo,
Sem de livro precisá
Por favô, não mêxa aí,
Cante lá, que eu canto cá.
Parafraseando este grande poeta que possamos afirmar: Louve lá, que eu louvo cá.
Que Deus nos abençoe para que sejamos sempre uma igreja acolhedora que realiza sua missão!