20 agosto 2009

Paixão pela Vida


Dias atrás postei um texto da Marina Colasanti sobre o título Eu sei, mas não devia. A Marina chamou-nos atenção para o fato que estamos nos acostumando com as coisas ruins que acontecem a cada dia, querendo poupar nossas vidas de tantas eventualidades tristes e amargas acabamos vivendo de maneira apática. Ela não está só em seus argumentos.

Jürgen Moltmann, teólogo reformado, chegou à conclusão que o mal e o sofrimento não são maus, mas sim a indiferença. O mal é nos tornarmos insensíveis aos acontecimentos desagradáveis. Ele chama esse mal de apatia, que originalmente significa “ausência de sofrimento”, e essa é uma doença não apenas da sociedade, mas também dos indivíduos. Como no passado, ainda acreditamos que essa seja a mais alta virtude dos deuses e dos homens.

“Estamos procurando viver uma existência sem sofrimento, alegrias sem dor e comunidades sem conflitos. É o que chamamos de felicidade” (Moltmann). Individualmente temos perdido nossos sentimentos e confundimos emoções em beneficio do sucesso e do trabalho. Com a filosofia que “só nos realizamos no trabalho” ocultamos sofrimentos e decepções. Aqueles que não trabalham como nós, não porque não querem, mas porque não lhes foram dadas as condições necessárias, chamamos simplesmente de vagabundos. Na nossa vida social, afastamos da vida pública os que não rendem, isto é, os doentes, os defeituosos, os fracos e os fracassados. A esses, que clamam por comunidade e amor, oferecemos os programas de assistência social, uma maneira de mantê-los sempre em seus lugares, pobres, fracassados e dependentes, e de tirar de nós um pouco da nossa culpa, pois afinal, “estamos fazendo o possível para o bem deles”.

Diante dessa situação, Moltmann chega à conclusão que “os que hoje, quiserem viver, precisarão viver conscientemente. Terão de aprender a amar com muita paixão para que não se acostumem com as forças da destruição”. O que anima ele nessa caminhada é a imagem de Cristo. Sua paixão o levou-o ao sofrimento na cruz. Nessa paixão e dor ele vê muito bem a paixão de Deus que nos dá força para resistir à morte.

O Deus do Antigo Testamento é um Deus que se tornou vulnerável ao amor. Quando Israel o abandonou e se deixou levar pelos ídolos, sua paixão pela liberdade desse povo fê-lo sofrer. Caminhou ao lado de Israel na direção do exílio, participando de seu sofrimento. Irou-se por causa dos pecados incoerentes do povo. “Quem vive em comunhão com esse Deus apaixonado não pode permanecer apático”. No Novo Testamento acha-se a história do sofrimento de Cristo. Somente a entenderemos na paixão que a tornou possível. Na paixão de Cristo a paixão de Deus se confunde com a nossa. Nela sentimos o amor de Deus e as dores do meu próprio corpo.

Sobre Jesus, Moltmann afirma: “a vida de Jesus não nos consola para uma vida no além nem apenas transmite esperança para o futuro. Ela nos orienta para a encarnação, a humanização e a salvação ao aceitar os perseguidos e ao reativar as relações humanas adormecidas”. A história de sua paixão tinha que ser assim, pois a paixão pela vida só se comunica quando os que a sentem estão prontos a sofrer. “A paixão que nos liberta para a vida só se efetiva ao se sacrificar. Jesus cria vida entre os que sofrem porque os amam e não por causa do grande poder”. Ele conclui que o segredo da paixão de nossa vida é que: “A vida humana só é viva quando experimenta o amor e a afirmação. Quanto mais amarmos a vida com paixão, tanto mais intensamente encontraremos a felicidade”.

Diariamente, nos jornais, as notícias sobre sofrimento e dor são inúmeras. Moltmann estava certo quando afirmou que já não há mais paixão pela vida, as relações humanas estão adormecidas. Precisamos nos entregar apaixonadamente a vida, vivê-la sem medo de perdê-la, “porque quem quiser guardar a própria vida perdê-la-á, mas aquele que perdê-la usando-a, a ganhará. Quando não ousamos a amar, seguramos a vida”. Se não formos realmente apaixonados pela vida, continuaremos a andar em nossas cidades com medo dos assaltos a luz do dia, a sermos indiferentes a dor do próximo, ao faminto que pede nossa ajuda. Ficaremos indiferentes a vergonha de ter políticos corruptos, que não fazem o menor esforço em esconder “seus atos secretos”. Não podemos deixar nos contaminar com essa doença chamada apatia, se temos que sofrer pela vida, que soframos, pois só assim viveremos.

3 comentários:

anabello21 disse...

Anjinho, arrebentou... amamos seu texto!!!!!
Abração.. de nós aqui: Paulinha e Chuchu!

Juliana Lira disse...

Você toca violão Regis?
Estou aprendendo a tocar e descobri uma coisa, meus dedos estão enrijecendo.

É o que acontece quando fazemos um esforço repetido ou sofremos alguma pressão.

Aconteceu o mesmo com os dedos da minha mão direita, escrevo com força e muito, isso aos nove anos causou um hematoma que logo mais transformou-se num calo.

Acho que a vida faz isso com a gente sabe? Os sofrimentos, as adversidades vão endurecendo alguma parte de nós, para nos protegermos da dor e estarmos preparados pra mais. É para nossa proteção.

Mas é certo que com o passar do tempo essa casca dura nos torna mais insensíveis e até meio cegos pra dor alheia. A repetição causa a invisibilidade. É só observar os mendigos nas ruas, invisíveis...

Devemos mesmo é ser como as cobras que trocam toda a sua pele. Renovar essa parte já endurecida e viver com paixão como você bem falou.
Mas não é fácil...

É preciso coragem pra viver de verdade.

Vc escreve muito bem e os textos sempre trazem uma meditação rica e coerente. Parabéns.

Milhões de beijos

Régis Pereira disse...

Olá Juh, não. Eu não toco violão! Não levo muito jeito com o ritmo.
Muito obrigado por seu comentário. Realmente precisamos aprender a viver. Dá uma oportunidade a vida.