22 dezembro 2010

Carlos Drummond de Andrade - Palavras Mágicas


Encontrei um pequeno livreto, cerca de 130 páginas, com poesias selecionadas do Carlos Drummond de Andrade. Nas primeiras páginas, a organizadora, Luiza de Maria, avisa que a intenção era reunir alguns dos textos do Drummond para que os jovens aprendessem a amar o autor. Não sei se o objetivo foi cumprido, mas as poesias foram tão bem organizadas que só consegui parar de ler porque o livro acabou. Gostaria de compartilhar alguns fragmentos:

O livreto está dividido em três partes. A primeira, Com Volúpia Voltei a Ser Menino, pertence a um trilogia chamada Boitempo – bom tempo, o melhor dos tempos, uma viajem na memória ao país da infância. Dois poemas dessa seção me chamaram atenção, uma trata das palavras que as crianças não ousam a falar na presença dos adultos, pois são proibidas: “Certas palavras não podem ser ditas / em qualquer lugar e hora qualquer. / Estritamente reservadas / para companheiros de confiança, /devem ser sacralmente pronunciadas / em tom muito especial / lá onde a polícia dos adultos / não advinha e nem alcança.

O segundo poema nos faz lembrar o primeiro amor, o amor da infância, aquelas primeiras palpitadas do coração, da qual não entendemos bem o que está acontecendo, mas que nos acompanhará pelo resto da vida: “Amo demais, sem saber que estou amando, / as moças a caminho da reza. / No entardecer, / elas também não se sabem amadas / pelo menino de olhos baixos mas atentos. / Olho uma, olho outra, sinto / o sinal silencioso de alguma coisa / que não sei definir – mais tarde saberei.../ Que fazer desse sentimento / que nem posso chamar de sentimento? / Estou me preparando para sofrer / assim como os rapazes estudam para médico / ou advogado.

A segunda parte traz como título Que Verdura é o Amor? São poesias, como afirma à organizadora, que tenta mostrar que através do amor o ser humano procura a confirmação de si próprio, busca a totalidade perdida, tenta eliminar de si a privação, carência, a falta, anseia pelo absoluto. No entanto, o ser humano é imperfeito e finito, tornando o amor muitas vezes uma grande ilusão. No poema Quero, encontramos uma situação implorativa, eu diria, desesperadora: Quero que todos os dias do ano / todos os dias da vida / de meia em meia hora / de 5 em 5 minutos / me digas: Eu te amo./ Ouvindo-te dizer: Eu te amo, / creio, no momento, que sou amado. / No momento anterior / e no dia seguinte, / como sabê-lo”?

Dessa seção “apaixonante”, guardei trechos do poema As Sem-Razões do Amor: “Eu te amo porque te amo. / Não precisas ser amante, / e nem sempre sabes sê-lo./ Eu te amo porque te amo. / Amor é estado de graça / e com amor não se paga. / Amor é dado de graça, / é semeado ao vento, / na cachoeira, no eclipse. / Amor foge aos dicionários / e a regulamentos vários... /Amor é primo da morte, / e da morte vencedor, / por mais que o matem (e matem) / a cada instante de amor.

A última parte traz o título O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente. É uma crítica a sociedade, ao seu modelo de vida. O poema Eu, Etiqueta, fala claramente que o homem está deixando de ser quem é para ser uma coisa: “Em minha calça está grudado um nome / que não é meu de batismo ou de cartório, / um nome... estranho. / Meu blusão traz lembrete de bebida / que jamais pus na boca, nesta vida. / Em minha camiseta, a marca de cigarro / que não fumo, até hoje não fumei.../Estou, estou na moda. / É doce estar na moda, ainda que a moda / seja negar a minha identidade, / trocá-la por mil, açambarcando / todas as marcas registradas, / todos os logotipos de mercado.../ Por me ostentar-me assim, tão orgulhoso/ de não ser eu, mas artigo industrial, / peço que meu nome retifiquem. / Já não me convém o título homem. / Meu nome novo é coisa. / Eu sou a coisa, coisamente.

Essa é a minha seção preferida. Gostaria citar os poemas completos, mas o melhor mesmo é pegar o livro e saboreá-lo. A tarde fica mais agradável com essas leituras e com essas palavras mágicas.

15 dezembro 2010

Senti Saudades de Casa


Hoje ao olhar o céu nublado de Fortaleza, e ao sentir o cheiro das telhas molhadas da chuva que caía, senti saudades de casa. Um sentimento nostálgico, meio que depressivo, que fazia o meu coração querer estar lá e os pés caminharem nessa direção.

Lembrei-me dos dias que esperava chegar o tempo do inverno. Sentava na calçada e direcionava o meu olhar para o norte, de onde esperava vir às nuvens carregadas de água, colocando fim a estiagem. Encantava-me com o brilho dos raios e com o vento frio no rosto, que por muitas vezes me causou desgosto, pois levava as nuvens embora, deixando o tempo feio, sem nenhum pouquinho de nuvem no céu.

Nessas primeiras chuvas éramos proibidos de sair na rua e tomar banho. Minha avó dizia que as primeiras chuvas eram para lavar as telhas. Aguardávamos ansiosos por outras chuvas, das quais saímos correndo pelas ruas, a procura das melhores bicas. Depois enchíamos latas d’águas, serviam para lavar as roupas, as deixavam branquinhas.

Entretanto, existiam chuvas que não podíamos sair de casa. Elas vinham com muito vento e relâmpagos. Ficávamos em casa, olhando pela brecha da porta o que acontecia lá fora. O meu tio eram o mais assustado de todos e repetia sem parar: “oh, invernão! Hoje o açude sangra! Mas, Deus, vai com calma”! Então fazíamos um ritual, que até hoje nunca entendi: Meus avós cobriam todos os espelhos da casa para não refletir os raios, e o meu tio pegava sal e jogava em direção a chuva, tudo isso para poder acalmá-la. Pasmem meus amigos, dava certo!

Quando chove no sertão, faz um friozinho gostoso, e nenhum sertanejo se atreve a sair de casa. Era assim também na minha. Depois da chuva forte, ficava aquele sereno, um chove não chove. Então a família se reunia e escutávamos o meu avô falar sobre outros invernos. Daqueles que demoraram chegar e que o forçaram a trabalhar construindo açudes nas “emergências”. Dos que vieram rápido e deixaram a paisagem verde, nesses anos, dizia ele, tudo o que plantamos, nós colhemos. E orgulhosos diziam, “a seca era brava, mas nunca faltô nada para nossos filhos”.

Quando chegava à hora de dormir, eu ia para a minha rede. Pensava nas histórias contadas, sonhava em vivê-las. Sentia o cheiro da terra molhada, escutava o som encantador dos últimos pingos sobre o telhado da casa, cobria-me com um cobertor de chuva, somente usado nessas ocasiões especiais, e planejava o próximo dia: amanhã verei se o rio está cheio, se tiver certamente a barragem sangrou e teremos água para mais um ano.

23 novembro 2010

Memórias Póstumas de Urias, o heteu (Benedito Bezerra)


"Esse texto foi escrito por Benedito Bezerra, está no livro Palavra de Deus na palavra dos pobres, reflexões a partir da periferia"


É bem provável que vocês nunca tenham reparado na minha presença em seu livro sagrado, a Bíblia, pois eu apareço lá apenas como um personagem menor na história da vida do (en)grande(cido) rei Davi. Sim, estou falando de uma história que a maioria de vocês conhece bem, localizada em 2 Samuel 11. Quem de vocês prestou atenção no papel de Urias naquela história? As Bíblias que vocês descrevem/prescrevem uma leitura orientada para as coisas “Davi comete um adultério e um homicídio,” “Davi e Bate-Seba”, “Adultério de Davi e morte de Urias” ou “adultério de Davi com Bate-Seba”. Note que somente um desses títulos o meu nome é mencionado. Nada do que fui ou realizei é lembrado, apenas a minha morte. Urias é realmente apenas uma pedra no meio do caminho de Davi.

Por essa razão, resolvi eu mesmo contar a minha história. Como um certo Brás Cubas, personagem da literatura de vocês, estou aqui não como um autor defunto, mas como um defunto autor, pois estou escrevendo já depois da minha morte. Nessa situação, parece que posso compreender melhor o que aconteceu. De toda forma, se vocês acharem que estou errado, não me importo. Afinal, sou apenas um morto.

Mas, como estava dizendo, do meu ponto de vista, é Davi quem entra no meu caminho. Eu estava bastante empenhado na guerra dele, que eu, apesar de ser apenas um estrangeiro, um heteu, tinha assumido como se fosse minha. Estava lutando com toda a minha bravura. Então Davi, que inexplicavelmente não tinha acompanhado seus exércitos para a guerra, conforme o hábito dos reis valentes e honrados, de repente manda me chamar à sua presença. Eu não tinha a menor idéia do que estava acontecendo. Por que o rei queria me ver?

Bem, ali eu estava diante do rei. Ele queria saber sobre Joabe, meu general, e sobre a situação da guerra. Achei estranho ter deixado a batalha para me transformar em uma espécie de informante do rei. Eu era um guerreiro e não um funcionário dos correios. A coisa ficou ainda mais esquisita quando o rei me aconselhou ir para casa e descansar. Acho que aquele era o sonho de tantos companheiros meus que ficaram na frente de batalha. Rever minha esposa: o que poderia ser melhor? Para completar, mal saí do palácio e recebi um presente do rei. Eu estava espantado com tanta gentileza. Não estava entendendo nada.

Mas resolvi não ir para casa, e preferi dormir com os empregados do rei diante do palácio. Quando o rei perguntou a razão disso, respondi que não poderia ir para casa, comer, beber e dormir com a minha mulher enquanto os meus companheiros e, mais do que isso, a Arca do Senhor, Deus de Davi, estavam acampados ao relento. Me impressionou o fato de que Davi parecia não perceber isso, ele que era tão chegado a Deus. Foi como se eu estivesse ensinando ao homem segundo o coração de Deus como devia se comportar diante desse Deus que ele adorava.

O rei ainda estava muito interessado em minha presença. Convidou-me a ficar mais um dia e me chamou para comer e beber. No final do dia, eu estava completamente bêbado. Mesmo assim, ao contrário de todos os bêbados, não procurei o caminho de casa. Novamente dormi ao lado dos empregados de Davi. Eu senti que isso era ser leal ao Deus em quem Davi dizia crer, e ser leal aos meus companheiros que continuavam na guerra.

No dia seguinte, Davi finalmente me enviou de volta à frente de batalha. Mais uma vez servi de mensageiro para Davi, pois levei comigo, por ordem do rei, uma carta para Joabe. Não sei o que estava escrito na carta, pois ela estava lacrada, conforme o costume, mas tenho uma forte sensação de que o conteúdo tem a ver com a minha morte e com a estranha conduta do rei.

O fato é que o voltei com Joabe para a batalha, e fomos para um lugar onde os adversários eram terríveis. Estranhamente, no momento mais difícil, Joabe se afastou de mim e de meus companheiros. Naquele dia, morreram alguns valentes guerreiros de Davi, e entre eles estava eu, Urias, o heteu.

E vocês, que conheceram o resto da história, o que acham dela? Como é que eu, um estrangeiro, que tentava viver minha vida e meus compromissos com honestidade e lealdade, perdi tudo que tinha, a esposa e até a própria vida, por causa dos caprichos pessoais de um rei que deveria andar nos justos caminhos do seu Deus?

12 outubro 2010

Só Precisa Que Eu Tenha Fé


Ontem estive no hospital. Fui acompanhar um pequeno amigo que estava internado por causa de problemas nos rins. Cheguei ao hospital, conversamos um pouco, sorrimos bastante das coisas que estavam acontecendo ao nosso redor. Encontrei no quarto outras pessoas, crianças que também tinha problemas mais graves e uma mãe, que apesar de todo o sofrimento, conservava o sorriso e o brilho da esperança nos olhos.

Quando chegou o momento de dormirmos, escolhi uma cadeira que ficava entre duas camas. A minha esquerda ficou o meu pequeno amigo, ao meu lado direito uma menina, que tinha cerca de 10 anos. Olhei para ela e dei boa noite, então ela me respondeu: “boa noite, qual é o seu nome”? Eu disse: “Régis, e o seu”? – “Maria Luiza, mas pode me chamar de Luiza”. Então começamos a conversar, pois estávamos sem sono. Ela me contou um pouco de sua vida, que morava numa cidade distante, tinha dez anos, mas a sua mãe não estava no hospital, pois está grávida. Como alguém que tem autoridade sobre o assunto, falou-me sobre a sua rotina no hospital e fiquei surpreso, como uma criança de dez anos conhecia tanta coisa.

Ela disse que quando estava em casa ia para a igreja, gostava de cantar louvores, juntamente com suas três amigas, e por isso ensaiavam todos os sábados. De repente, no meio da conversa, disse: “Conta uma história para mim, para que eu possa dormir”. Fiquei um pouco sem graça, e respondi que era muito ruim contando histórias e não conseguia lembrar-se de nenhuma. Mas, ela insistiu: “Todos os dias eu escuto uma música de um homem chamado Zaqueu, você sabe a história”? Vendo que não tinha como escapar de contar a história, então comecei a falar sobre Zaqueu: Falei que ele fazia uma coisa muito feia, pegava as coisas que não eram dele, maltratava as pessoas, mas que um dia, ele ouviu falar que um tal de Jesus passava por sua cidade... como era bem baixinho, subiu em uma árvore... então Jesus o viu em cima da árvore e pediu que ele descesse, porque ele gostaria de ficar na casa dele. Na casa de Zaqueu, Jesus sentou a mesa, e Zaqueu ficou tão feliz que devolveu tudo o que tinha roubado as pessoas e tornou-se uma boa pessoa.

Então ela me interrompeu: “Os meus rins não funcionam mais”. Respondi: Vamos pedir a Deus para concertar. Ela sorriu pra mim e disse: “Acho que eu preciso participar da reunião dos 300 homens”. Onde fica isso? Perguntei. “Você não sabe”? Questionou: “Dizem que fica no centro da cidade”. Entendendo do que ela falava, preparei-me para respondê-la usando o meu conhecimento teológico e afirmei: Você não precisa participar dessa reunião... Antes mesmo que eu terminasse, ela falou:

Eu sei que não preciso participar, na verdade se Deus quiser ele pode curar os meus rins, só precisa que eu tenha fé”. Fiquei espantado com a demonstração de fé dela, nenhuma resposta mais caberia, e uma lágrima começou a rolar dos meus olhos, mesmo sendo orientado a segurá-las quando elas quisessem rolar. Ela perguntou se eu chorava, respondi que não, apenas estava muito feliz ao ouvi-la. Pela manhã, não mais a encontrei, já tinha saído para cumprir a sua rotina diária no hospital. Para mim, ficou apenas a certeza que a fé nasce em meio ao sofrimento, e a razão para que os olhos daquela criança ainda brilhassem e ainda houvesse um sorriso em seus lábios, era saber que Deus poderia curá-la. Saí do hospital com a certeza de que: “da boca dos pequeninos e das crianças que ainda mamam, Deus suscita o perfeito louvor” (Mateus 21,16).

08 outubro 2010

Convertei-vos, Porque o Reino do Céu Está Próximo


Segundo Grudem conversão é: “a nossa resposta espontânea ao chamado do evangelho, pela qual sinceramente nos arrependemos dos nossos pecados e colocamos a confiança em Cristo para receber a salvação”. Ele continua dizendo que conversão é voltar-se do pecado, da qual chamamos de arrependimento e o voltar-se para Cristo, isso é o que chamamos de fé. Em suma podemos dizer que conversão tem haver com a fé e o arrependimento. É estarmos caminhando em direção a um lugar, mas em certo momento darmos uma volta, e caminharmos em direção oposta.

Essa é uma definição famosa sobre conversão. Nesses dias refletiam sobre o aviso cheio de vigor de João Batista: “Convertei-vos, porque o reino do céu está próximo”. Claramente uma afirmação utilizada por mim durante muitos anos para convencer todos aqueles que não eram cristãos, na minha mente isso significava “crente”, a aceitarem Jesus. Creio que eu não era o único a utilizar-se desse recurso. Entretanto, percebi que estava equivocado, muito mais do que um pedido de conversão, João Batista estava fazendo uma denúncia contra um povo que conhecia muito de Deus, mas que tinha suas atitudes marcadas pela injustiça.

Quem precisava realmente se converter eram os sacerdotes de sua época, todos aqueles que se utilizavam do nome de Deus para legitimar suas ações marcadas pela injustiça. Era necessário converter, porque conhecer de Deus não qualificava ninguém como participante do seu Reino. Thiago já dizia: “Crês tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem”.

A conversão vem marcada por atitudes que demonstram que a minha fé é verdadeira. É produzir frutos do arrependimento, saber que não adiante falar de amor, de acolhimento, de comprometimento, de unidade, quando suas atitudes revelam brigas, intrigas, opressão e ausência do amor. Conversão é seguir a Jesus, o acompanhando de todo o coração e constantemente, compartilhando sua vida e destino ao custo de todas as alianças e compromissos, ligando-se a ele, engajando-se em sua obra, e assim, mostrando que estão qualificados para serem seus discípulos... nesse sentido essencial, é um dom de Deus, é o estar apto” (Karl Barth).

Diante disso, aprendo que para minha conversão ser verdadeira, é preciso que existam os frutos do arrependimento, e esses frutos nada mais são do que a minha fé, nascida do meu relacionamento com Deus, com o meu próximo e o com o meu distante. É minha fé tornando-se prática, quando ajudo a criar na terra seca um jardim, como Deus criou no Éden, quando eu visto a nudez como Deus vestiu Adão, quando visito o doente, como Deus visitou Abraão, quando conforto o triste, como Deus confortou Isaque, quando enterro o morto, como Deus enterrou Moisés.

Se a nossa fé não trouxer a justiça de Deus em nossos atos, não pertencemos ao Reino de Deus e então: “o machado já está posto, e árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo”.

03 setembro 2010

O Perfeito Amor Lança Fora o Medo


Na última semana participei do lançamento do livro Meninos de Deus – Um olhar para o caminho. O livro foi criado como culminância de um projeto chamado Rota da Paz. Os jovens escritores carregavam consigo o estigma de serem infratores, mesmo que alguns nunca tenham cometido uma infração, e por isso não mereciam confiança, nem respeito. A idéia do livro era que a comunidade a partir daquele momento pudesse ver esses jovens com outro olhar, que transparecesse respeito e confiança.

Na hora da fala do idealizador do grupo, me perguntei o que leva uma pessoa a perder o medo da violência e enfrentar traficantes e gangues, para que assim outros jovens pudessem abandonar o caminho das drogas, assaltos e voltarem a serem respeitados em sua comunidade e famílias? Só uma resposta caberia. Tudo isso foi por amor. Um perfeito amor que não negou o medo da violência, mas soube superá-la e permitir que outros também conseguissem.

O autor de I João fala desse perfeito amor que supera os medos. Para ele, qualquer confissão na pessoa de Deus, deve está personalizado nas relações humanas. Quando ele diz “amem uns aos outros” (4,7), não está fazendo um pedido, mas dando um aviso: “se vocês realmente pertencem a Deus, o amor aos seus irmãos será a prova disso”. Nessas relações humanas, esse temor que representa o medo é deixado de lado, pois ele implica em castigo, amedrontamento, ameaça e intimidação. E onde predominam esses fatores, o amor é colocado em segundo plano. Se o amor está em segundo plano, a vida começa a perder o seu valor.

A lição que podemos tirar dessa história é que superaremos a violência quando deixarmos que o perfeito amor tome conta de nossas vidas. Quando nossas relações não forem mais regidas pela ameaça, orgulho ou qualquer outra forma de escravizar o homem e a mulher. É necessário aprendermos que a violência não está somente no outro, mas também está em mim, e precisa ser controlada pela força do amor. Jesus superou a violência contra ele amando: “Pai, perdoa esta gente! Eles não sabem o que estão fazendo” (Lucas 23,34). Talvez, esse fosse um indício de como deveríamos nos comportar diante dos medos que temos em nossos dias. Um indício que é necessário amar, e amando, permitir que o Reino de Deus esteja entre nós, para que seus meninos e meninas vivam felizes.

20 abril 2010

“Eu estou com você todos os dias de sua vida"


Na semana que se passou me encontrei numa situação difícil. Recebi pela madrugada a notícia que meu tio que estava com câncer tinha falecido. Fiquei desolado por não saber o que fazer, desejava ardentemente estar junto com minha família, consolando e sendo consolado.

Mas o episódio da morte do meu tio era apenas mais um dos sofrimentos e das incertezas que estava vivendo. Juntando todas essas incertezas com os lampejos de sofrimento diário que vivenciava caí em tristeza e revolta dentro de mim. Estava revoltado com a situação que vivia, revoltado com o próprio Deus e com a solidão que sentia naquele momento. Foi uma das semanas mais atribuladas e tristes que tinha passado.

Quando chegou o domingo, subiu ao púlpito, como tenho feito a maioria dos domingos. Não subi feliz, a dor e a tristeza ainda tomava conta de mim. Escolhi o texto de Josué, capítulo primeiro, onde Deus repete várias vezes para o novo líder do seu povo: não temas. Tentava de alguma forma dizer para mim mesmo que Deus dizia aquelas palavras direcionadas a mim. Que ele estava no controle da minha vida, e toda aquela situação iria passar, mas não conseguia convencer a mim mesmo, nem aqueles que prestavam atenção em minha palavra.

Enfim, desabafei. Estou triste! Perdi o meu tio e não tive condições de estar com minha família para poder partilhar da dor que sinto aqui dentro. Desculpem-me, também estou tentando acreditar que Deus está no controle de todas as coisas e que não devo temer. Cantamos que “nunca vimos um justo sem resposta ou padecer no sofrimento...” Quero também dizer que além de triste, estou com dúvidas. Acho que não sou justo! A única coisa que posso dizer para vocês hoje é que também acredito que não devo temer, mas quero confessar que tenho medo, e a única certeza que tenho que de algum modo Deus está comigo.

Então, orei e desci do púlpito e sentei na minha cadeira na segunda fileira da igreja. Ouvi algumas palavras de apoio, em meio ás lágrimas, de uma irmã. Quando terminou o culto um irmão veio ao meu encontro com a sua Bíblia aberta e disse: sabe o que está inscrito em II Coríntios? Eu brinquei: muita coisa. Então ele leu para mim o que queria mostrar: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e o Deus de toda a consolação; Que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, com a consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus. Porque, como as aflições de Cristo são abundantes em nós, assim também é abundante a nossa consolação por meio de Cristo” (II Co 1.3-5). E continuou: Disse-lhe, porém, o Senhor: Vai, porque este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de Israel. E eu lhe mostrarei quanto deve sofrer pelo meu nome (Atos 9.15-16).

Aquele momento rápido me fez lembrar que todos somos sacerdotes de Deus, com igual capacidade de ministrar sobre a vida uns dos outros. Acostumado a pastorear, fui pastoreado e exortado por aqueles que cuidam de mim. Entendi que um justo também sofre, pois Jesus tinha sofrido, e que quando Deus diz não temas, na verdade ele está dizendo, eu também senti a dor de que você está sentindo, senti o abandono e a tristeza quando morri numa cruz. Por isso que o “não temas” de Deus nunca está sozinho, sempre vem acompanhado de um “eu estou com você todos os dias de sua vida”.

31 março 2010

Partilhando da Vida Com Humildade


Henri Nouwen procurando uma palavra que pudesse definir todo o mistério do amor de Deus escolheu comunhão. Para ele, essa palavra contém a verdade que, em e através de Jesus, Deus quer não apenas nos ensinar, nos instruir ou nos inspirar, mas também se tornar um conosco. Toda a história do relacionamento de Deus com nós humanos é uma história de comunhão cada vez mais profunda.

Nesses momentos é preciso lembrar que nossa comunhão com Cristo exige que sejamos um só corpo. A oração de Jesus em João 17 deixa isso evidente: “Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos em unidade”. Estar unido a Jesus, é viver em comunhão com o seu semelhante. É aprender a partilhar o pão, a alegria, a tristeza, enfim, a vida.

Pensando em comunhão volto o meu olhar para a comunidade dos filipenses. A carta que o apóstolo escreveu para aqueles cristãos é conhecida como a carta da alegria, que também gosto de chamar de carta de gratidão. Essa comunidade fugiu do protocolo de como nasciam às comunidades cristãs do primeiro século. A sua formação se dá através de um grupo de mulheres, e tenho a impressão que a presença e a liderança delas a frente dessa comunidade suscitaram uma sensibilidade maior com relação às pessoas, e especialmente com o apóstolo Paulo.

O relacionamento de Paulo com essa comunidade nos deixa admirados e desejosos de desfrutarmos desse mesmo sentimento. Para Paulo, os filipenses estão em seu coração, são seus amados, queridos e saudosos irmãos. Em meio ao sofrimento Paulo não desistiu da luta, mas nem por isso se tornou uma pessoa ignorante, amargurada. Paradoxalmente, fez uma síntese entre ternura e luta. Continuava a amar a cada um dos filipenses, que retribuíam aquele amor com mais amor e cuidado. Ao ponto de enviarem um dos seus membros para cuidar de Paulo enquanto este se encontrava preso. Eles sabiam que não deveriam trabalhar sozinhos, e nem com murmurações ou críticas, mas permanecerem firmes no seu propósito de brilharem como estrelas em meio a uma gente corrupta e pecadora.

Certa vez li a seguinte frase: “a experiência comunitária nos ajuda a vivenciar a experiência única de reconciliação”. Essa experiência de reconciliação foi vivenciada pelos filipenses. Reconciliados por Deus, através de Jesus Cristo, aprenderam a ter os mesmos sentimentos e ações, e a resolverem os seus conflitos olhando através do olhar de Jesus. Por isso, foram capazes em meio ao sofrimento despertarem a solidariedade por aquele irmão que precisava de sua ajuda. Vivendo em comunidade aprenderam que não existe espaço para ilusões, as pessoas são pecadores e falhas, então se faz necessário ter em nós os mesmos sentimentos que haviam em Jesus.

Comecei esse texto citando o Nouwen, lembrando que a história do nosso relacionamento com Deus é a história de uma comunhão profunda. Comunhão encontrada em Paulo e os filipenses. Comunhão que é, sobretudo, um ato de reconciliação, Deus reconciliando-se comigo e eu reconciliando-me com cada um dos meus irmãos e irmãs. Sempre trazendo a memória que comunhão não pressupõe egoísmo, mas traz consigo humildade. A semelhança de um Deus que estando em sua glória resolveu viver a nossa vida para que pudéssemos viver a vida dele, que compreende que o maior ato de amor é dar vida por aqueles que Ele ama, mesmo que aqueles que Ele ama, ainda não o ame. Isso é comunhão, saber partilhar da vida com humildade.