23 novembro 2010

Memórias Póstumas de Urias, o heteu (Benedito Bezerra)


"Esse texto foi escrito por Benedito Bezerra, está no livro Palavra de Deus na palavra dos pobres, reflexões a partir da periferia"


É bem provável que vocês nunca tenham reparado na minha presença em seu livro sagrado, a Bíblia, pois eu apareço lá apenas como um personagem menor na história da vida do (en)grande(cido) rei Davi. Sim, estou falando de uma história que a maioria de vocês conhece bem, localizada em 2 Samuel 11. Quem de vocês prestou atenção no papel de Urias naquela história? As Bíblias que vocês descrevem/prescrevem uma leitura orientada para as coisas “Davi comete um adultério e um homicídio,” “Davi e Bate-Seba”, “Adultério de Davi e morte de Urias” ou “adultério de Davi com Bate-Seba”. Note que somente um desses títulos o meu nome é mencionado. Nada do que fui ou realizei é lembrado, apenas a minha morte. Urias é realmente apenas uma pedra no meio do caminho de Davi.

Por essa razão, resolvi eu mesmo contar a minha história. Como um certo Brás Cubas, personagem da literatura de vocês, estou aqui não como um autor defunto, mas como um defunto autor, pois estou escrevendo já depois da minha morte. Nessa situação, parece que posso compreender melhor o que aconteceu. De toda forma, se vocês acharem que estou errado, não me importo. Afinal, sou apenas um morto.

Mas, como estava dizendo, do meu ponto de vista, é Davi quem entra no meu caminho. Eu estava bastante empenhado na guerra dele, que eu, apesar de ser apenas um estrangeiro, um heteu, tinha assumido como se fosse minha. Estava lutando com toda a minha bravura. Então Davi, que inexplicavelmente não tinha acompanhado seus exércitos para a guerra, conforme o hábito dos reis valentes e honrados, de repente manda me chamar à sua presença. Eu não tinha a menor idéia do que estava acontecendo. Por que o rei queria me ver?

Bem, ali eu estava diante do rei. Ele queria saber sobre Joabe, meu general, e sobre a situação da guerra. Achei estranho ter deixado a batalha para me transformar em uma espécie de informante do rei. Eu era um guerreiro e não um funcionário dos correios. A coisa ficou ainda mais esquisita quando o rei me aconselhou ir para casa e descansar. Acho que aquele era o sonho de tantos companheiros meus que ficaram na frente de batalha. Rever minha esposa: o que poderia ser melhor? Para completar, mal saí do palácio e recebi um presente do rei. Eu estava espantado com tanta gentileza. Não estava entendendo nada.

Mas resolvi não ir para casa, e preferi dormir com os empregados do rei diante do palácio. Quando o rei perguntou a razão disso, respondi que não poderia ir para casa, comer, beber e dormir com a minha mulher enquanto os meus companheiros e, mais do que isso, a Arca do Senhor, Deus de Davi, estavam acampados ao relento. Me impressionou o fato de que Davi parecia não perceber isso, ele que era tão chegado a Deus. Foi como se eu estivesse ensinando ao homem segundo o coração de Deus como devia se comportar diante desse Deus que ele adorava.

O rei ainda estava muito interessado em minha presença. Convidou-me a ficar mais um dia e me chamou para comer e beber. No final do dia, eu estava completamente bêbado. Mesmo assim, ao contrário de todos os bêbados, não procurei o caminho de casa. Novamente dormi ao lado dos empregados de Davi. Eu senti que isso era ser leal ao Deus em quem Davi dizia crer, e ser leal aos meus companheiros que continuavam na guerra.

No dia seguinte, Davi finalmente me enviou de volta à frente de batalha. Mais uma vez servi de mensageiro para Davi, pois levei comigo, por ordem do rei, uma carta para Joabe. Não sei o que estava escrito na carta, pois ela estava lacrada, conforme o costume, mas tenho uma forte sensação de que o conteúdo tem a ver com a minha morte e com a estranha conduta do rei.

O fato é que o voltei com Joabe para a batalha, e fomos para um lugar onde os adversários eram terríveis. Estranhamente, no momento mais difícil, Joabe se afastou de mim e de meus companheiros. Naquele dia, morreram alguns valentes guerreiros de Davi, e entre eles estava eu, Urias, o heteu.

E vocês, que conheceram o resto da história, o que acham dela? Como é que eu, um estrangeiro, que tentava viver minha vida e meus compromissos com honestidade e lealdade, perdi tudo que tinha, a esposa e até a própria vida, por causa dos caprichos pessoais de um rei que deveria andar nos justos caminhos do seu Deus?

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