22 dezembro 2010

Carlos Drummond de Andrade - Palavras Mágicas


Encontrei um pequeno livreto, cerca de 130 páginas, com poesias selecionadas do Carlos Drummond de Andrade. Nas primeiras páginas, a organizadora, Luiza de Maria, avisa que a intenção era reunir alguns dos textos do Drummond para que os jovens aprendessem a amar o autor. Não sei se o objetivo foi cumprido, mas as poesias foram tão bem organizadas que só consegui parar de ler porque o livro acabou. Gostaria de compartilhar alguns fragmentos:

O livreto está dividido em três partes. A primeira, Com Volúpia Voltei a Ser Menino, pertence a um trilogia chamada Boitempo – bom tempo, o melhor dos tempos, uma viajem na memória ao país da infância. Dois poemas dessa seção me chamaram atenção, uma trata das palavras que as crianças não ousam a falar na presença dos adultos, pois são proibidas: “Certas palavras não podem ser ditas / em qualquer lugar e hora qualquer. / Estritamente reservadas / para companheiros de confiança, /devem ser sacralmente pronunciadas / em tom muito especial / lá onde a polícia dos adultos / não advinha e nem alcança.

O segundo poema nos faz lembrar o primeiro amor, o amor da infância, aquelas primeiras palpitadas do coração, da qual não entendemos bem o que está acontecendo, mas que nos acompanhará pelo resto da vida: “Amo demais, sem saber que estou amando, / as moças a caminho da reza. / No entardecer, / elas também não se sabem amadas / pelo menino de olhos baixos mas atentos. / Olho uma, olho outra, sinto / o sinal silencioso de alguma coisa / que não sei definir – mais tarde saberei.../ Que fazer desse sentimento / que nem posso chamar de sentimento? / Estou me preparando para sofrer / assim como os rapazes estudam para médico / ou advogado.

A segunda parte traz como título Que Verdura é o Amor? São poesias, como afirma à organizadora, que tenta mostrar que através do amor o ser humano procura a confirmação de si próprio, busca a totalidade perdida, tenta eliminar de si a privação, carência, a falta, anseia pelo absoluto. No entanto, o ser humano é imperfeito e finito, tornando o amor muitas vezes uma grande ilusão. No poema Quero, encontramos uma situação implorativa, eu diria, desesperadora: Quero que todos os dias do ano / todos os dias da vida / de meia em meia hora / de 5 em 5 minutos / me digas: Eu te amo./ Ouvindo-te dizer: Eu te amo, / creio, no momento, que sou amado. / No momento anterior / e no dia seguinte, / como sabê-lo”?

Dessa seção “apaixonante”, guardei trechos do poema As Sem-Razões do Amor: “Eu te amo porque te amo. / Não precisas ser amante, / e nem sempre sabes sê-lo./ Eu te amo porque te amo. / Amor é estado de graça / e com amor não se paga. / Amor é dado de graça, / é semeado ao vento, / na cachoeira, no eclipse. / Amor foge aos dicionários / e a regulamentos vários... /Amor é primo da morte, / e da morte vencedor, / por mais que o matem (e matem) / a cada instante de amor.

A última parte traz o título O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente. É uma crítica a sociedade, ao seu modelo de vida. O poema Eu, Etiqueta, fala claramente que o homem está deixando de ser quem é para ser uma coisa: “Em minha calça está grudado um nome / que não é meu de batismo ou de cartório, / um nome... estranho. / Meu blusão traz lembrete de bebida / que jamais pus na boca, nesta vida. / Em minha camiseta, a marca de cigarro / que não fumo, até hoje não fumei.../Estou, estou na moda. / É doce estar na moda, ainda que a moda / seja negar a minha identidade, / trocá-la por mil, açambarcando / todas as marcas registradas, / todos os logotipos de mercado.../ Por me ostentar-me assim, tão orgulhoso/ de não ser eu, mas artigo industrial, / peço que meu nome retifiquem. / Já não me convém o título homem. / Meu nome novo é coisa. / Eu sou a coisa, coisamente.

Essa é a minha seção preferida. Gostaria citar os poemas completos, mas o melhor mesmo é pegar o livro e saboreá-lo. A tarde fica mais agradável com essas leituras e com essas palavras mágicas.

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