13 março 2010

Ele Sorriu Para Mim


Certo dia, percebi que na minha coleção de livros teológicos faltava uma boa teologia sistemática e precisava rapidamente corrigir essa falha.

Chegando à livraria me apresentaram uma obra notável. Disseram-me que era simplesmente o melhor livro de teologia sistemática da atualidade, mais moderno, mais completo e com os temas mais variados possíveis, tinha até um capítulo sobre as batalhas espirituais e outro sobre o papel da mulher na liderança da igreja. Sem dúvidas, rapidamente comprei o livro, era esse que eu estava precisando. De quebra ainda trouxe algumas confissões de fé que estavam em promoção. Cristão que se preze precisa sempre ter sua confissão de fé na mão.

Saí da loja orgulhoso por conta das minhas novas aquisições, me sentia mais preparado para responder os questionamentos que viessem a existir por conta da minha fé. Peguei um ônibus que me levasse rapidamente para casa e assim eu pudesse deliciar-me nas leituras.

Então, entrou no ônibus um senhor que aparentava ter uns 50 anos de idade. Calçava sandálias desgastadas e os seus pés estavam com rachaduras que assustava qualquer um, vestia uma calça desbotada e uma camisa que faltava os dois primeiros botões. Ele se colocou em pé, no meio do ônibus, próximo ao motorista, e começou a falar. Sua voz saía cansada, triste e envergonhada. Sua cabeça permanecia um pouco abaixada, não sei se era de propósito, mas dessa maneira não conseguíamos ver o seu olhar. Era mais um dos milhares de mendigos que encontramos em nossa cidade.

Naquele momento senti em meu coração um desejo de colocar a mão no meu bolso e dá o dinheiro que se encontrava nele. Sentindo isso como um pedido de Deus, obedeci. Entretanto, percebi que naquele bolso não existiam moedas, e sim notas, e eu não sabia quanto era. Com a mão no bolso comecei uma discussão com Deus: “Senhor, eu não sei quanto tem em meu bolso, não posso obedecer a essa ordem, talvez nem seja o Senhor que esteja falando, isso deve ser coisa da minha cabeça”. Mas, o desejo aumentava e o meu coração começava a arder. Então comecei a maldizer aquele homem em minha mente, já que eu não poderia maldizer Deus que é maior do que eu. Isso é engraçado, dificilmente falamos mal ou maldizemos alguém que é superior a nós, mas quando se trata de pessoas que nos parecem inferiores, fazemos isso com a maior facilidade. Foi isso que fiz, dizendo: Senhor, esse homem deve ser um preguiçoso, é vagabundo e não quer trabalhar, não tenho nada a ver com ele.

Então levantei a cabeça e pela primeira vez vi que aquele homem olhava em meus olhos. O seu olhar trazia sofrimento e angústia, um olhar perdido e sem esperança. E senti os meus olhos e coração se abrirem, e ouvi: “Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar”. Perplexo e atordoado tirei a mão do bolso com o dinheiro e entreguei aquele homem. Quanto estava saindo do ônibus olhei mais uma vez para ele, e ele, sorriu para mim.

Naquela tarde comecei a leitura daqueles livros, mas com uma certeza que o evangelho é muito mais prático do que teórico, que não adiantava ter a melhor teologia sistemática em casa se não tivesse a coragem de buscar a justiça em todos os momentos. À noite, com uma moradora de uma comunidade da grande Fortaleza tive outro aprendizado. Um dos presentes a reunião questionou porque Deus se preocupava tanto com os pobres. Aquela mulher deu a melhor das definições que já ouvi: “É que eles têm as características necessárias para a manifestação do Reino de Deus”. Nunca foi ao um seminário, nunca “estudou teologia”, nem curso superior fez. Mas ela tem algo muito mais importante: Ela não somente leu o evangelho, ela viveu o evangelho. E isso é relacionamento com Deus.