15 dezembro 2010

Senti Saudades de Casa


Hoje ao olhar o céu nublado de Fortaleza, e ao sentir o cheiro das telhas molhadas da chuva que caía, senti saudades de casa. Um sentimento nostálgico, meio que depressivo, que fazia o meu coração querer estar lá e os pés caminharem nessa direção.

Lembrei-me dos dias que esperava chegar o tempo do inverno. Sentava na calçada e direcionava o meu olhar para o norte, de onde esperava vir às nuvens carregadas de água, colocando fim a estiagem. Encantava-me com o brilho dos raios e com o vento frio no rosto, que por muitas vezes me causou desgosto, pois levava as nuvens embora, deixando o tempo feio, sem nenhum pouquinho de nuvem no céu.

Nessas primeiras chuvas éramos proibidos de sair na rua e tomar banho. Minha avó dizia que as primeiras chuvas eram para lavar as telhas. Aguardávamos ansiosos por outras chuvas, das quais saímos correndo pelas ruas, a procura das melhores bicas. Depois enchíamos latas d’águas, serviam para lavar as roupas, as deixavam branquinhas.

Entretanto, existiam chuvas que não podíamos sair de casa. Elas vinham com muito vento e relâmpagos. Ficávamos em casa, olhando pela brecha da porta o que acontecia lá fora. O meu tio eram o mais assustado de todos e repetia sem parar: “oh, invernão! Hoje o açude sangra! Mas, Deus, vai com calma”! Então fazíamos um ritual, que até hoje nunca entendi: Meus avós cobriam todos os espelhos da casa para não refletir os raios, e o meu tio pegava sal e jogava em direção a chuva, tudo isso para poder acalmá-la. Pasmem meus amigos, dava certo!

Quando chove no sertão, faz um friozinho gostoso, e nenhum sertanejo se atreve a sair de casa. Era assim também na minha. Depois da chuva forte, ficava aquele sereno, um chove não chove. Então a família se reunia e escutávamos o meu avô falar sobre outros invernos. Daqueles que demoraram chegar e que o forçaram a trabalhar construindo açudes nas “emergências”. Dos que vieram rápido e deixaram a paisagem verde, nesses anos, dizia ele, tudo o que plantamos, nós colhemos. E orgulhosos diziam, “a seca era brava, mas nunca faltô nada para nossos filhos”.

Quando chegava à hora de dormir, eu ia para a minha rede. Pensava nas histórias contadas, sonhava em vivê-las. Sentia o cheiro da terra molhada, escutava o som encantador dos últimos pingos sobre o telhado da casa, cobria-me com um cobertor de chuva, somente usado nessas ocasiões especiais, e planejava o próximo dia: amanhã verei se o rio está cheio, se tiver certamente a barragem sangrou e teremos água para mais um ano.