09 julho 2011

Tão Parecida Com o Seu Pai


Parecia mais um culto, uma dessas celebrações demorosas e enfadonhas. Pensei comigo: hoje é dia de batismo, o pastor vai falar horas e horas, acabarei saindo tarde daqui, não dará tempo nem conversar em nossa calçada. Lá era onde fazíamos a extensão do culto.

Sentei-me na sexta fileira de bancos. Escolhi ficar perto do corredor, sempre ficava ali quando sabia que passaria gente importante. Tem gente que só quer fica no corredor quando tem casamento, ou não consegue parar quieto. Eu não! Sempre reservei o corredor para poder olhar nos olhos de quem passava, e assim permitir que olhasse nos meus e soubesse que eu estava ali, ao seu dispor.

A celebração continuava enfadonha como sempre, seguindo os incansáveis ritos. Às vezes me perguntava a Deus será que ele realmente ouvia todos esses cultos iguais ao redor do mundo, ou ele tirava umas férias no domingo? Se não, Ele certamente merecia. E ainda tem gente que passa anos estudando para enfim fazer as mesmas coisas que sempre foram feitas.

Mas, finalmente chegou o grande momento. E ele não foi igual aos outros. Na frente encontrava-se um pai, vestido de pai realmente e com cara de pai. O seu aspecto sério tinha sido substituído pela serenidade de um homem cujo seu dever estava sendo cumprido. O orgulho saltava dos seus olhos. Olhos que começaram a refletir, como em um espelho, a presença de alguém que caminhava em sua direção. Era a sua filha! Caminhava por aquele corredor em direção a ele.

E talvez ele pensasse que anos atrás ela corria por aqueles corredores e bancos, sem nenhuma intenção, apenas porque era livre como qualquer outra criança. E em suas quedas, quantas vezes ele a tinha colocado nos braços, afagado com seu amor, e sarado aquelas dores. Talvez também pensasse quanto outros corredores ela teria que passar de agora em diante, tantas outras quedas e dores, mas agora com a capacidade de se reerguer sozinha e continuar. Mas, ele ainda estaria ali, a sua presença ainda traria segurança.

Então ela passou ao meu lado. Usava um vestido rosa, com uma fita de setim, que fazia um laço na cintura. Olhando para aquele que estava a sua frente, tão pai, tão amigo, ela cantou uma linda canção que dizia: “quero ser como criança, te amar pelo que és, voltar a inocência e acreditar em ti”. Olhando para ela, fechei os meus olhos para poder vê-la com o meu coração. E nunca esqueci a beleza inconfundível que ela trazia consigo. Então ele a abraçou, com um abraço de um pai, e ela o amou mais ainda.

Depois disso, tudo voltou ao seu normal, o ritual, o culto, a celebração. Dizem que essa menina cresceu e hoje é uma mulher, tão parecida com o seu pai e tão parecida com ela mesma. Ainda dizem que algumas vezes ela sofreu e dores tomaram conta dela. Aí ela fecha os seus olhos e começa a ver com o coração. Um criança com o seus sonhos se realizando, e que ainda consigo escutar a sua voz cantando: “quero ser como criança, te amar pelo que és, voltar a inocência e acreditar em ti”.


(Era assim que eu me recordava do batismo e profissão de fé da Sheila Luna. Mas ela já explicou que algumas coisas foram diferentes. O tempo nos faz esquecer alguns detalhes).

2 comentários:

Rose Lira disse...

Legal de dmais...saber que Deus continua sendo Deus apesar dos ritos vazios é muito consolador! kkkkk

Régis Pereira disse...

A gente vai aprendendo isso com a experiência!rsrs