08 agosto 2011

Semear


Aprendi cedo o que é semear. Nasci realmente em um pé de serra, em pleno sertão nordestino. Lá vivi a minha infância, a espera das chuvas chegaram para poder arar a terra e assim vivermos do seu fruto. Semear nada mais era do que espalhar as sementes pelo campo em tempo propício. Semear era uma ação em três tempos: passado, presente e futuro. Era necessário antes preparar a terra para que as sementes fossem lançadas, e assim aguardarmos pacientemente pela nascimento do seu fruto. Não poderíamos semear se o tempo não fosse propício, mas quando as chuvas demoravam, mesmo assim semeávamos. Algo dentro de nós nos dizia que daria certo, que as chuvas voltariam a cair, e se elas não caíssem, certamente o culpado não seríamos nós, pois acreditávamos que elas viriam.

Quando descansávamos ao meio dia, os mais velhos falavam das histórias que eram contadas pelas redondezas, da maldade de alguns e como o caminho errado de outros proporcionaram a eles momentos de sofrimento. Então aprendi que semear não era somente no campo, mas também na vida. E na vida, mesmo nos mais singelos momentos, estamos semeando. Duramente, percebi que “quem semeia ventos, colhe tempestades”.

Então, quando cresci saí a semear, como aquele semeador dos evangelhos. Algumas das sementes simplesmente caíram do meu bisaco, fui descuidoso no falar, no agir, irresponsável no amar. Não julgo que as sementes que levava eram ruins, poderiam não ser exatamente boas, mas tinha algum valor. Eu poderia ter sido mais cuidadoso com elas. Percebi que muitas vezes semeamos em lugares inapropriados, e quando fazemos isso não adianta esperar frutos.

Mas, ainda não aprendi qual é o tempo apropriado. Ainda me sinto como aquela criança com o seu pequeno bisaco, no seu pé de serra, arando e semeando a terra, sem ver a possibilidade da chuva, mas acreditando que ela virá no tempo propício dela mesmo.

Um comentário:

Juliana Lira disse...

Regis

Belo texto meu irmao. Infelizmente nao aprendi a semear desde cedo.

Aprendi a relaçao do colher o que planta, do receber o que se dar. E desde entao minha vida é espalhar boas sementes.

Mas sou uma amadora.

Tantas vezes imatura, tantas vezes tola. Ainda espero que todas as sementes germinem. E nao é assim.

"Percebi que muitas vezes semeamos em lugares inapropriados, e quando fazemos isso não adianta esperar frutos."

Como seu texto muito bem escrito e tocante disse, nem sempre o chao é propício, ou o tempo...

Qualquer mudança é dolorosa, qualquer aprendizado.

É preciso que a semente morra pra que nasça a árvore. Um dia gente aprende, um dia a gente cresce. Somos sementes também, nao é?

Milhoes de beijos