06 agosto 2011

Voar Juntos




“Quando as sessões de doce e silente pensamento

Recordo as lembranças das coisas passadas,

Suspiro pela falta de muitas coisas que busquei,

E com antigos ais, novos lamentos desperdiçam meu tempo.

Então posso volver um olhar, desacostumado,

Para amigos preciosos, ocultos na noite sem data da morte,

Chorando de novo a tristeza do amor cancelado,

Lamentando a expansão de muitas vistas parecidas:

Então posso entristecer-me ante tristezas passadas,

E de ai em ai, pesadamente, posso contar de novo

A narrativa triste de lamentos passados,

Que agora pago como se já não os tivesse pago.

Mas, quando me lembro de ti, caro amigo,

Todas as perdas são restauradas, todas as tristezas findam.

(William Shakespeare).


Nos meus primeiros anos no seminário a presença dos amigos foi fundamental para que eu resistisse firme esse período. Igualmente ao Shakespeare, eu tinha sessões de doce e silente pensamento, que findavam com um aperto no coração, que hoje posso claramente chamar de solidão.

Em uma das minhas viagens, quando fui visitar os meus familiares, comentei com uma amiga da solidão que eu sentia. O falar já era uma vitória para mim, acostumado a ouvir e nunca revelar os meus sentimentos. Lembro que ela pegou um guardanapo de papel e escreveu: “tenho medo do que é novo. Tenho medo de viver o que não entendo. Quero sempre pelo menos pensar que entendo. Não sei me entregar à desorientação” (Clarice Lispector). Naquele momento sabia que ela não falava dela. O medroso da história era eu. Estranhamente tive um pouco da minha auto-estima restaurada naquele instante. A presença dela, da caneta e do guardanapo eram sinais que eu não conseguiria escrever a minha própria história se não aprendesse a dividi-la com outro.

Voltando ao seminário, meses depois recebi uma correspondência inesquecível. As crianças da igreja que eu congregava escreveram diversas cartinhas, com coisas simples, mas que me fortaleceram para a caminhada. Diziam coisas do tipo: “estaremos esperando você voltar”, “eu estou orando por você tio, volta logo”, “nós te amamos”, “quando minha mãe deixar eu também quero ir pro seminário”. Lamento por não ter conseguido responder a todas.

Nessa semana, quando li a carta de Paulo aos Filipenses uma frase me chamou atenção: “Na minha vida em união com o Senhor, fiquei muito alegre porque vocês mostraram de novo o cuidado que têm por mim”(4,10). Nessa carta Paulo lembra que aprendeu a conviver com as dificuldades, em suas palavras: “estar satisfeito com o que tem”. Uma alegria tomava conta dele, mesmo que estivesse passando fome, frio ou em perigo de morte. Todas essas coisas já não mais chamavam a atenção de Paulo, o que o deixava feliz eram a disposição daquela comunidade em ajudá-lo. Daí nasce uma das belas definições de amizade que conheço: “vocês foram os únicos a participarem dos meus lucros e dos meus prejuízos” (4,15).

Participar leva-nos ao sentido mais profundo da amizade. É estar presente, mesmo que pareça ausente, caminhar na mesma direção, mesmo que os caminhos nos pareçam levar a destinos diferentes. Lembro que ouvi a história de um casal que pertencia a uma tribo indígena e foram pedir permissão ao pajé para se casarem. O pajé então disse que daria a permissão se os dois encontrassem as maiores aves da região e os trouxessem para ele. Eles fizeram como pajé pediu, e perguntaram: deseja que os matemos para ficarmos com a sua força? O pajé respondeu: “não é preciso, amarre uma a outra e as soltem”! Fizeram dessa maneira, e quando as soltaram, cada ave quis voar para um lado e não conseguiram sair do lugar. Então o pajé pediu que as desramassem e novamente as soltassem. Feito isso as aves voaram em direção a montanha, e o pajé concluiu: “nunca se sintam amarrados um ao outro, pois assim vocês não conseguirão sair do lugar, mas aprendam a voarem juntos na mesma direção”.

Acho que precisamos entender esse sentido da amizade em todos os nossos relacionamentos: voar junto na mesma direção faz bem a saúde. Paulo e os filipenses entendiam isso, por isso a ligação entre eles eram muito forte. Aprendi que em alguns momentos desfrutarei da solidão, mas sempre reconheço que o caminho que segui, muitos outros seguiram, é por isso que não desanimo. Tenho amigos e amigas que sempre posso contar. Ainda há uma corrida para correr, uma fé para ser conservada, e um prêmio a todos aqueles que esperam com amor a vinda de um reino de justiça, em Jesus.

Quando as tristezas chegam me lembro de ti, caro amigo, todas as perdas são restauradas, todas as tristezas findam”.






Um comentário:

Rose Lira disse...

eita, eita, eita...esse ficou legal demaisssssssssss....