27 dezembro 2011

Valeu À Pena Esperar



Que estranho desejo? Porque preciso sair hoje de minha casa? Tu sabes que não tenho mais a disposição da juventude comigo. Os meus braços estão constantemente cansados, as minhas pernas já não me levam tão longe. Preciso esforça-me para entender o que os outros falam. Mas, porque me incomodas, Senhor? O que queres me mostrar?

Não bastasse a fadiga do corpo, trago comigo o cansaço da alma. O cansaço daqueles que esperam por dias melhores, daqueles que buscam a fidelidade a Ti, mesmo vendo poucas coisas mudarem. O cansaço daqueles que vêem os teus filhos mendigando o pão e sendo entregues como escravos para um povo estranho. Deus, quantas vezes gritei paz, paz, mas violência, violência se colocaram a minha frente.

Os anos voam e estou tão cansado. Olho ao meu redor e vejo um povo que se deixa levar pela injustiça, uma nação que diz pelas suas ruas: “nada é mais injusto do que a igualdade”. Vejo os meus irmãos escravizarem nossos próprios irmãos, porque um povo estranho fez com que acreditássemos que o pecado não existia, pois o que realmente existe é apenas o nosso desejo de realização própria, nossa vontade individual de crescer, nem que para isso necessitemos diminuir o próximo.

Subo as escadas do templo e lembro-me de tua promessa. Ensaio um pequeno sorriso em meio a tanto cansaço. Tu me disseste que antes da minha morte eu veria o Messias. Os anos se passaram, sinto próxima a morte e sinto mais próxima ainda a tua promessa. É ela que renova as minhas forças.

Próximo ao altar vejo uma família. Estão oferecendo em sacrifício a Ti dois pombinhos, certamente são pobres demais para poderem ofertar uma ovelha. Com eles o primeiro filho. Aproximo-me para poder ajudar no sacrifício. Pego a criança em meu colo e o meu coração começa a arder, uma lágrima começa a rolar do meu rosto. Quanto tempo eu esperei? Quantas vezes eu achei que não veria este momento? Quantas lágrimas de tristeza eu derramei. Em minha velhice achei que esse momento não aconteceria.

Mas, Senhor cumpriste a promessa que fizeste e já podes deixar este teu servo partir em paz. Pois eu já vi com os meus próprios olhos a tua salvação, que preparaste na presença de todos os povos: uma luz para mostrar o teu caminho a todos os que não são judeus e para dar glória ao teu povo de Israel (Lucas 2.29-32).

Em meus braços o motivo da minha salvação. Tão frágil, tão vivo, tão pobre, tão rico. Mais uma vez dou graças a Deus, olho nos olhos daquela mãe e sinto o quanto ela ainda irá sofrer por causa do seu filho, e quanto seu filho irá sofrer por causa de um mundo tão mau e injusto.

Volto para casa em passos vagarosos. Deito em minha cama. Abra um sorriso e digo para mim mesmo: “valeu à pena esperar”.

Um comentário:

Barros disse...

O prazer de saber que não se acredita em vão, o medo de saber q a corda tangeu do lado de lá, existe uma promessa q não vai passar nas asas do nada... É confortador acreditar, é confortador saber que das experiências dos que passaram, não estamos sós... Muito bom mano, sempre inspirador ler suas palavras!