17 dezembro 2011

Sinto vergonha de mim! (Cleide Canton)







Deparei-me com essa poesia pela primeira vez com o Rolando Boldrin declamando. Achei de uma simplicidade e verdade incontestáveis. Quantos de nós já não perdemos a esperança de viver em uma democracia mais justa e igualitária, onde a honestidade seja o princípio fundamental.
Sinto vergonha de mim…
por ter sido educador de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.
Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o “eu” feliz a qualquer custo,
buscando a tal “felicidade”
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.
Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos “floreios” para justificar
atos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre “contestar”,
voltar atrás
e mudar o futuro.
Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer…
Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.
Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti,
povo brasileiro !

***
“De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto”.
(Rui Barbosa)





14 dezembro 2011

Tempo de Espera e Dor


Comecei ontem uma leitura no evangelho de Lucas. Comprei um pequeno livreto, do Luiz Mosconi, intitulado de Evangelho de Jesus Cristo Segundo Lucas, para poder acompanhar-me nessa jornada. Logo no início um parágrafo do livro prendeu a minha atenção:

“Jesus Cristo não é para ser discutido demais, e sim para ser conhecido, amado e seguido, até o ponto de dizer, como o apóstolo Paulo: “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim (Gálatas 2.20)”. Quem faz essa experiência, sente a necessidade de partilhá-la, de testemunhá-la, com gosto, até gritar como o apóstolo Paulo: “Ai de mim se eu não anunciar o evangelho” (I Co, 9,16)”.

Parto da premissa que é necessário amar mais a Jesus, conhecê-lo mais e segui-lo completamente, para compartilhar nessas linhas uma história de fidelidade. A primeira história do Evangelho de Lucas é de um casal: Zacarias e Isabel. O texto diz que eles já eram idosos e que não tinham filhos. Essa é uma informação muito importante, pois não ter filhos naquela época era conviver com a vergonha, afinal, filhos são herança do Senhor, não tê-los representava que Deus não era com eles.

Mas, essa é uma história de fidelidade. De um casal que vivia como se todas as promessas tivesse se cumprido em suas vidas, que servia de tal forma que seu testemunho foi contado pelos séculos e séculos. A história de fidelidade de um homem e de uma mulher para com o seu Deus, e da fidelidade de um Deus para com um homem e uma mulher de vidas dignas. Diante dessa leitura fico imaginar o quanto é bom esperar pelos cumprimentos das promessas de Deus em nossas vidas. Para Zacarias e Isabel, representou, mesmo em idade avançada, o nascimento de um filho. Eles seriam pais daquele que seria o maior profeta de todos.

As promessas de Deus para as nossas vidas se realizam no tempo de Deus, da melhor maneira possível, do jeito mais tremendo e inacreditável. Esperar é apenas o momento onde Deus forja o nosso caráter para a realização de algo muito maior. Deus tem uma “preferência” por aqueles que são rejeitados pela sociedade, pelos seus amigos e família, mas cultivam uma vida de retidão diante de Dele. Que não se deixam levar pelos pequenos sofrimentos diários, mas que vivem em perigo de morte por causa de Jesus, para que a vida dEle seja vista em seu corpo (II Co 4.11). Eles acreditam nos sonhos de Deus para as suas vidas e sabem, como diz o poeta moderno: “aquilo que vale apena possuir, vale apena esperar”.

Desejo terminar com frase do Henri Nouwen, um mestre para mim: “A cada dia, a cada momento do dia, há a dor de nossas perdas e a oportunidade de escutar uma palavra que nos perde para que escolhamos viver essas perdas como um caminho para a glóra”.