29 dezembro 2011

Porque Deus Fez os Seres Humanos Assim?






“Porque Deus fez os seres humanos assim, capazes de se odiar, de chegar a matar injusta e cruelmente uns aos outros”? Essa é uma pergunta feita por Jon Sobrino em seu livro intitulado Onde está Deus? O livro faz uma reflexão a partir de um terrremoto devastador em El Salvador e do ataque terrorista de 11 de setembro nos Estados Unidos, e de guerras que foram conseqüências desse atentado.

Sofrimento e morte têm nos acompanhando no mundo atual. Em minha própria mente a pergunta feita por Jon Sobrino ressoa sem parar. As guerras acontecem, pessoas morrem injustamente, o mundo é marcado pela desigualdade e a barbárie. Por que Deus fez os seres humanos assim?

Não tenho respostas para todas as questões do sofrimento humano. O que posso falar é da experiência de conhecer o Deus crucificado. Olhando para a cruz posso compreender um Deus diferente do que estamos acostumados a olhar. Não é um Deus distante, desconhecedor do sofrimento, que só nos salvará se for por meio de grandes milagres. É um Deus que está em silêncio na cruz, mas que conhece o meu sofrimento, compartilha da minha dor, pois é na cruz que Deus está se reconciliando comigo através de Jesus (II Co 5,18). E o que está no fundo de tudo isso é o amor. Nas palavras de Jon Sobrino: Deus mostra seu amor ao ficar próximo das vítimas, ao estar solidário com elas, totalmente e até o final. Por isso não importa que eu ainda seja pecador, Deus continua provando o seu amor por mim.

A melhor resposta para o sofrimento humano é reconhecer que Deus está ao meu lado. Pois Deus também sofreu na cruz, “e somente um Deus que sofre pode nos ajudar” (Bonhoeffer). Ontem acontecerem crimes que me assustaram, hoje, chorei por estar decepcionado com tantas coisas, mas pude compreender que Cristo despedaçado na cruz ressuscitou. Por que Deus fez seres humanos assim? Não! Deus não fez seres humanos assim, pois Deus é um Deus em favor da vida, que está do nosso lado totalmente e até o final.

27 dezembro 2011

Valeu À Pena Esperar



Que estranho desejo? Porque preciso sair hoje de minha casa? Tu sabes que não tenho mais a disposição da juventude comigo. Os meus braços estão constantemente cansados, as minhas pernas já não me levam tão longe. Preciso esforça-me para entender o que os outros falam. Mas, porque me incomodas, Senhor? O que queres me mostrar?

Não bastasse a fadiga do corpo, trago comigo o cansaço da alma. O cansaço daqueles que esperam por dias melhores, daqueles que buscam a fidelidade a Ti, mesmo vendo poucas coisas mudarem. O cansaço daqueles que vêem os teus filhos mendigando o pão e sendo entregues como escravos para um povo estranho. Deus, quantas vezes gritei paz, paz, mas violência, violência se colocaram a minha frente.

Os anos voam e estou tão cansado. Olho ao meu redor e vejo um povo que se deixa levar pela injustiça, uma nação que diz pelas suas ruas: “nada é mais injusto do que a igualdade”. Vejo os meus irmãos escravizarem nossos próprios irmãos, porque um povo estranho fez com que acreditássemos que o pecado não existia, pois o que realmente existe é apenas o nosso desejo de realização própria, nossa vontade individual de crescer, nem que para isso necessitemos diminuir o próximo.

Subo as escadas do templo e lembro-me de tua promessa. Ensaio um pequeno sorriso em meio a tanto cansaço. Tu me disseste que antes da minha morte eu veria o Messias. Os anos se passaram, sinto próxima a morte e sinto mais próxima ainda a tua promessa. É ela que renova as minhas forças.

Próximo ao altar vejo uma família. Estão oferecendo em sacrifício a Ti dois pombinhos, certamente são pobres demais para poderem ofertar uma ovelha. Com eles o primeiro filho. Aproximo-me para poder ajudar no sacrifício. Pego a criança em meu colo e o meu coração começa a arder, uma lágrima começa a rolar do meu rosto. Quanto tempo eu esperei? Quantas vezes eu achei que não veria este momento? Quantas lágrimas de tristeza eu derramei. Em minha velhice achei que esse momento não aconteceria.

Mas, Senhor cumpriste a promessa que fizeste e já podes deixar este teu servo partir em paz. Pois eu já vi com os meus próprios olhos a tua salvação, que preparaste na presença de todos os povos: uma luz para mostrar o teu caminho a todos os que não são judeus e para dar glória ao teu povo de Israel (Lucas 2.29-32).

Em meus braços o motivo da minha salvação. Tão frágil, tão vivo, tão pobre, tão rico. Mais uma vez dou graças a Deus, olho nos olhos daquela mãe e sinto o quanto ela ainda irá sofrer por causa do seu filho, e quanto seu filho irá sofrer por causa de um mundo tão mau e injusto.

Volto para casa em passos vagarosos. Deito em minha cama. Abra um sorriso e digo para mim mesmo: “valeu à pena esperar”.