25 abril 2012

Para Viver um Grande Amor


Faz algum tempo que gostaria de publicar em meu blog um texto do poetinha camarada, Vinícius de Moraes. Me identifiquei com esse: Para Se Viver um Grande Amor. Quando lia para uma amiga hoje, ela acabou exclamando: "é, já não existe mais homens como antigamente". 


"Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor".

(Texto extraído do livro "Para Viver Um Grande Amor", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 130.)

2 comentários:

Juliana Lira disse...

Esse é simplesmente um de meus livros favoritos! E o Vinícius (maravilhoso) de Moraes é o meu escritor.
Sei lá porque, acho que porque ele fala assim sabe? Das coisas que passei toda minha curta vida acreditando até a vida me desacreditar, e eu querer acreditar de novo. E novamente ela me desacreditar.
Eita que Vinicius parecia ter a receita certa para viver um grande amor. Acho que eu me apaixonaria fácil por ele, sabe? Moveria seus e terra pra tá perto, fosse a distancia que fosse.
Porque Vinícius toca minha alma lá no fundo.
Ele ver as coisas como eu vejo e hoje em dia quando falo dessas coisas meus jovens amigos riem e desdenham.
Lembro de uma certa vez em que falava com uma amiga e o seu "amor da vez" e ele se declarava pra ela e enquanto ele fazia isso, lembrei de uma croica do Vinicius que tem nesse livro (a minha preferida no mundo inteiro)

O trecho final diz assim:

"É ela, Deus do céu, é ela! Como a encontrei, não sei. Como chegou até aqui, não vi. Mas é ela, eu sei que é ela porque há um rastro de luz quando ela passa; e quando ela me abre os braços eu me crucifico neles banhado em lágrimas de ternura; e sei que mataria friamente quem quer que lhe causasse dano; e gostaria que morrêssemos juntos e fôssemos enterrados de mãos dadas, e nossos olhos indecomponíveis ficassem para sempre abertos mirando muito além das estrelas."

E ao recitar o trecho e dizer que meu sonho era um dia que alguém me dissesse isso, acreditando de verdade, sabe?
Entao ele simplesmente recitou pra ela, como se fosse verdade. E ela gargalhou e alegou ser funebre.

O amor virou piada nos dias de hoje. Para viver um grande amor é preciso uma fé enorme. Mesmo quando a pessoa amada nao a tem.

Milhoes de beijos pessoa linda!

Régis Pereira disse...

adoro quando você escreve. Parece que a poesia brota de ti como uma facilidade enorme! Te amo!