23 novembro 2012

Homens de Verdade Não Roubam



Lembro-me como se fosse amanhã do meu primeiro ato infracional, diga-se de passagem, o primeiro e último. Quando adolescente eu gostava de colecionar pequenos soldadinhos de plástico. Eu tinha vários soldadinhos e de uma diversidade de formatos enormes. Entretanto, em visita ao meu pequeno colega Alex, percebi que ele possuía algo que ainda não fazia parte de minha coleção. Fiquei apaixonado por aquele pequeno soldado que nas minhas tropas seria um general fantástico.

Desse momento em diante comecei a tramar o futuro roubo. Imaginei todas as formas de captação do objeto, como ocultar o dito cujo e as rotas de fuga. Tudo muito bem planejado, então dei prosseguimento à ação. Fiquei de frente para a porta de entrada da casa, movimentei com passos lentos até a mesa onde estava o objeto a ser subtraído, verifiquei se havia a presença de alguém, captei o objeto e o ocultei em minha boca. Logo depois empreendi fuga pela porta de entrada que estava a minha frente, com passos rápidos para não ter que iniciar uma conversa com ninguém.

Chegando a minha casa comemorei o sucesso da ação. Mas apenas por alguns minutos. Minha avó, conhecedora de todo o meu exército e arsenal militar, estranhou a presença daquele novo general.  Indagou-me de onde ele tinha aparecido. As minhas explicações não foram altamente convincentes e ela se viu na obrigação de avisar ao meu avô que o meu exército tinha um novo membro de procedência duvidosa. Nesse momento fui acometido de um frio na barriga digno daqueles que tem culpa no cartório e estão prestes a ser descobertos.

O que passo a narrar agora aconteceu quando o sol avermelhado se morre dando espaço a uma escuridão brilhante. Meu avô sentou-me numa cadeira e questionou-me sobre aquele pequeno soldado. Sem mais poder mentir diante da verdade que brotava dos seus olhos, expliquei a minha ação delituosa.   Disse que eu havia roubado da casa da Dona Chica e que o brinquedo pertencia ao Alex. Houve silêncio naquele vão da casa.

Depois do silêncio, como todo homem nascido no sertão, meu avô explicou-me a gravidade de minha ação. Olhou nos meus olhos e disse-me que homens de verdade não roubam. E intimou-me a fazer uma caminhada de restauração. Ele disse: "volte a casa de Dona Chica e devolva o que pertence a ela e ao seu filho, fala para ela que você roubou e que eu lhe ensinei que homens de verdade não roubam. Peça perdão e volte para o castigo”. Na caminhada que se seguiu a dor do castigo foi imensuravelmente menor do que a vergonha do pedido de perdão.

O constrangimento foi enorme, mas a recompensa ficou guardada até hoje.Sempre que vejo pessoas retirando coisas que não lhe pertencem, lembro do que o meu avô me ensinou: “Régis, homens de verdade não roubam”.

3 comentários:

Juliana Lira disse...

Gostei :)

Régis Pereira disse...

obrigado linda

Romeu disse...

Muito perfeito meu amigo e irmão e pastor. Parabéns