19 setembro 2007

Parecia, mas não era - Marcos 11.12-26


A história é a seguinte: Jesus entra em Jerusalém, montado num jumentinho e aclamado pelo povo. As pessoas estendiam suas vestes para que ele pudesse passar e muitos clamavam “Hosana, bendito o que vem em nome do Senhor”. As pessoas que acompanhavam esse evento, bendiziam o reino que começaram com Davi e viam em Jesus os cumprimentos das promessas de Deus. Logo depois de entrar em Jerusalém, já era tarde, e ele com seus discípulos resolvem ir para Betânia.
O texto que acabamos de ler relata a volta de Jesus para Jerusalém. No meio do caminho ele sente fome e ver de longe uma figueira. Uma figueira bonita, cheia de folhas, mas que não tinha nenhum fruto. Ele amaldiçoa a figueira e continua a sua caminhada. Chegando a Jerusalém se dirige ao templo, lá encontra vendedores, cambistas e um comércio ilimitado dentro do templo. Se irritando com a situação, ele expulsa todos que estavam ali e exorta que aquela seria uma casa de oração. Em outro dia passa por aquele lugar e Pedro nota que a figueira tinha secado, e Jesus dar alguns lições sobre aquele acontecimento.
Parecia, mas não era! A figueira parecia ter frutos, mas não tinha! O templo parecia ser casa de oração, mas não era! Vivemos em momentos que muitas coisas só têm aparências. E esse texto não se distancia disso. É uma sentença de condenação, uma metáfora sobre a condição religiosa de um povo marcado pela exterioridade e feitios, um viver de aparências. Nos dias de hoje, olhamos para o nosso povo e muitas vezes encontramos cristãos de aparências, simplificando, pessoas que realmente procuram esconder quem realmente são e que nunca tiveram um encontro com Jesus e que nunca deixaram que esse Deus habitasse em seus corações.
Meus queridos irmãos e irmãs, não posso chegar aqui domingo após domingo e dizer aquilo que todos querem ouvir. Que Deus é amoroso e que ele fará seus celeiros transbordar, que por todo lado você será abençoado, que você nasceu pra ser cabeça e não cauda. Certamente que Deus é abençoador, mas também o Senhor de justiça que exige santidade dos seus servos e comprometimento com suas obras. E se nos distanciamos disso, não estamos enganando a Deus, mas a nós mesmos.


1. A figueira, uma vida sem frutos

A figueira era bonita, estava cheia de folhas. Para um viajante, que tinha passado por lugares desertos, e agora sentindo fome, aquela parecia à alimentação perfeita. Entretanto, toda aquela beleza exterior revelou que não havia frutos, não tinha como alimentar ninguém. Era apenas frondosa e bonita.
Estamos em um tempo que a aparência vale muita coisa. Quando vamos fazer uma entrevista para um emprego, caprichamos, colocamos a nossa melhor roupa, para podermos conseguir a vaga. Vemos em todos os lugares pessoas que fazem de tudo para terem o melhor corpo, algo que possa se exibir ou mesmo se esconder de algo. Pessoas que tentam desesperadamente serem outras completamente diferentes do que realmente são. Isso acarreta infelicidade, medo, uma pessoa que realmente não sabe o que quer.
Infelizmente este costume de viver aparências foi trazido para dentro da igreja facilmente. Pessoas que encontramos e dizem com convicção que têm uma nova vida, que Deus as transformou, apenas falam da boca pra fora, porque em seus corações não perdem tempo e estão a todo o momento arranjando uma maneira de fazer o mal ao outro. È uma vida às vezes cheia de alegria, que nos passa que está tudo bem, é uma figueira cheia de folhas, mas que não tem frutos, uma vida que não alimenta. Igualmente a entrada de Jesus em Jerusalém, onde pessoas clamavam o seu nome e o bendiziam e diziam que aquele era o rei de Israel. Entretanto, não precisou de muita coisa para dias mais tarde aquele povo estivesse na casa do governados, aos brados, pedindo a crucificação de Jesus. Parecia um povo que louvava a Deus e criam em Jesus, mas só parecia.
Será que não estamos nos comportando da mesma maneira. Alegres, felizes dentro da igreja e procurando viver algo que não faz parte de nossas vidas? Será que ainda estamos em cima do muro, sem sabermos a quem vamos servir, se a Deus ou nós mesmos e aos nossos desejos? Em Tiago 4.5 está escrito: “Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós. Alimpai as mãos, pecadores; e, vós de duplo ânimo, purificai os corações”Tg 4.8. Duplo ânimo é dupla vida, é achar que conseguirá disfarçar a maldade que habita em nossos corações. Porque como o próprio Paulo disse: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que quero esse faço” Rm. 7.19.
Temos que nos apresentar diante de Deus com um coração arrependido, por tantas vezes termos falhado. Já que Cristo habita em nós, agora temos que procurar dar bons frutos. “Pois não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons... Pelos seus frutos os conhecereis” Mateus 7.18-19. Isso é tão lógico que não precisamos nos aproximar de Deus procurando esconder quem realmente somos. Estamos aqui para darmos bons frutos, alimentar aqueles que têm fome e sede de Deus, mas só faremos isso se primeiro formos alimentado por Deus, pelo seu Santo Espírito.

2. O templo, aparência religiosa e desonestidade

O acontecimento da figueira era apenas uma preparação para o que viria acontecer mais tarde quando Jesus chegasse ao templo. O templo ficava em Jerusalém, uma região muito alta. As pessoas que vinham chegando a Jerusalém logo se deparavam com o templo, uma construção suntuosa e normalmente cheia de pessoas. Ao longe parecia sim, uma casa de oração para todos os povos. Mas, ao se aproximar o que se encontrava era um mercado livre, cambistas, vendedores, pessoas que exploravam quem passavam por ali. Para poder se oferecer um sacrifício, ou mesmo depositar sua oferta, era preciso trocar seu dinheiro romano, pelo dinheiro do templo. Aquele que não pudesse fazer um sacrifício com ovelhas ou animais maiores poderia comprar pelo um preço exorbitante as pombas que ali se encontrava.
Era para ser uma casa de oração, no entanto tinha se transformado em um covil de ladrões. O que dominava aquele lugar era sentimento, uma ação que podemos muito bem classificar como desonestidade. Dentro da casa dedicada ao Deus todo-poderoso o que reinava era a desonestidade. Ninguém era honesto com o seu irmão, ninguém procurava falar a verdade, apenas tirar proveito da situação do outro. A “casa” que serviria para que os povos viessem orar ao Deus Altíssimo, que era para ser testemunho para todas as nações, tornou-se um exemplo de tudo aquilo que não deveria ser. Jesus se irrita com essa situação, com a exploração do mais simples, com o mau testemunho daquele povo, e expulsa todos que estavam comercializando naquele lugar, pois estava escrito: “A minha casa será chamada por todos os povos casa de oração”.
Mas será que a desonestidade na casa do Senhor é apenas daquele tempo? Será que encontramos pessoas desonestas hoje na igreja? Se encontramos, precisamos permitir que Jesus faça uma reforma e expulse de nossos corações todos esses sentimentos que não vem do alto, tudo aquilo que não agrada a Deus, tudo aquilo que fere ao próximo. A desonestidade e falsidade são as piores coisas que alguém pode cultivar. Olhar para o outro apenas como objeto de satisfação pessoal é egoísmo e nada tem a ver com os ensinamentos de Jesus. Viver aparências para que outros olhem de longe e digam ali está um povo que realmente adora a Deus não é requisito para estar na presença deste Deus. Israel também tinha suas festas religiosas, também pulavam e se diziam que estavam adorando a Deus, mas qual foi à resposta para aquele povo: “Quando vocês vêm a minha presença que foi que pediu esse corre-corre nos pátios do meu templo? Não adianta de nada me trazerem ofertas: eu odeio o incenso que vocês queimam. Não suporto as Festas da Lua Nova, os sábados e as outras festas religiosas, pois os pecados de vocês estragam tudo isso... quando vocês levantarem suas mãos para orar, eu não olharei para vocês. Ainda que orem muito, eu não os ouvirei, pois os crimes mancharam as mãos de vocês” Isaias 1.1315.
Essa era a situação de um povo que precisa ser mais verdadeiro, que precisava se dedicar a ser um testemunho para todas as nações, a se tornar uma casa de oração. Um lugar onde Deus estaria presente e ouviria a oração do seu povo.

3. Sobre Fé e Perdão

O texto termina com duas observações muito importantes para aqueles que desejam tem uma vida sem aparências, sem falsidade: fé e perdão.
“Tende fé em Deus” isso é requisito para qualquer coisa que desejarmos pedir. Ter fé em Deus é confiar Nele e entregar-se totalmente a ele. Mas esse Deus é amoroso, portanto todo aquele que não ama não o conhece. Ele está disposto a atender todos os nossos pedidos e suprir todas as nossas necessidades. Sim, ele é um Deus vitorioso com toda certeza e que nos torna mais que vencedores. Ele é o Deus que nos chamou para a felicidade e uma vida próspera, mas de acordo com sua vontade. Ele é todas essas coisas.
Mas, nós estamos muito acostumados a ler apenas a parte do texto que fala-nos sobre prosperidade, gostamos de ouvir que tudo o que pedirmos, orando, podemos ter certeza que iremos receber. Leiamos a segundo parte do texto nos versículos 25-26: “E, quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas; Mas se vós não perdoardes, também o vosso Pai, que está nos céus, vos não perdoará as vossas ofensas”. O perdão é necessário para se construir uma vida em que haja dedicação a Deus. E se queremos acabar com as aparências temos que cultivar essa virtude. Não é fácil, mas não poderemos nos apresentar diante de Deus sem antes perdoarmos a todos aqueles que nos ofenderam. A oração é: perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos...
Assim como nós perdoamos aqueles que buscaram nos prejudicar. Assim como nós perdoamos aqueles que inventaram calúnias ao nosso respeito. Assim como nós perdoamos todos que falaram duramente conosco e disseram que fizemos coisas que nunca fizemos. Assim como nós perdoamos a nós mesmos, por acharmos que não somos tão legais como estamos e assim procurarmos viver uma vida de aparências. O perdão leva-nos até Deus, pois esse é um dom divino, que só podemos sentir se Deus nos abençoar com ele. Ele nos perdoou de todas as nossas falhas, resta-nos como seus filhos, perdoar todos aqueles que estão ao nosso redor. Não perguntar quem é o nosso próximo, mas procurar uma maneira para que todos aqueles que precisam de ajuda tornem-se o nosso próximo.
Perdão é despojar-nos de nós mesmos e sermos preenchidos do amor de Deus. É isso que Deus requer de nós, se realmente somos os seus filhos e se realmente estamos dispostos a ouvir e obedecer as suas palavras.


Conta-se uma história que um menino chegou irritado em casa, dizendo que odiava todos os seus colegas. O seu pai então deu uma tarefa para ele: vá lá fora e pegue todo carvão que você encontrar e jogue-o nas árvores, faça isso até que você se acalme. O garoto obedeceu e foi cumprir a tarefa. Jogou todas as pedras de carvão que encontrara, com a maior raiva possível, e logo se acalmou. Então o pai foi até ele e o encontrando todo sujo, disse: Tá vendo filho, quando você sente ódio de alguém você não apenas machuca o outro, mas está sujando a si mesmo.
É assim quando sentimos ódio e tentamos disfarçar e enganar os outros. Os maiores prejudicados somos nós mesmos. Deus quer dá-lhe nova vida. Uma vida onde aparência externa reflita um interior cheio de alegria, paz, bondade e amor. Que tornar nossas vidas figueiras que alimentam, casa de oração.
Que Deus nos abençoe!

25 junho 2007

Liderança Servidora: mito ou realidade?


Depois do sucesso do livro o Monge e o Executivo, de James Hunter, um conceito que não é tão novo no mundo começa a fazer parte da vida das empresas. Trata-se da liderança servidora, que se baseia na teoria que para ser um verdadeiro líder tem que servir.
Entretanto ficamos em dúvida até onde esse conceito é válido. Se usarmos o exemplo de Jesus Cristo, que é o principal personagem dessa teoria, notaremos que ele nasceu a dois mil anos atrás. Então esse tipo de liderança não é algo novo, há muito tempo existe, só que nunca foi vivida pela maioria dos líderes que conhecemos. Se fizermos uma retrospectiva de todos os grandes líderes que nós conhecemos na história veremos que eles lideraram com mão de ferro, poucos foram aqueles que o povo os seguiram de boa vontade.
Observando o mundo atual vemos que é um mundo de competição, da busca dos melhores e exclusão daqueles que demonstram serem menos eficientes. É fácil dizer para os empregados que eles são importantes, mas a realidade é diferente, pois, eles sabem que se errarem, logo serão substituídos por outros mais competentes. Nesse cenário parece quase impossível falar de liderança servidora, que ela se trata de um mito, não da realidade. Isso é tão constante na vida diária, que até mesmo as faculdades de administração que deveriam criar esse novo tipo de líder, têm seus funcionários agindo de maneira autocrática e conservadora, se baseando em suas vontades individuais.
Não quero aqui trazer uma perspectiva negativa sobre a liderança servidora, mas elas nos parecem ainda um pouco distante da vida dos empregados. Muito tem que se feito para que ela deixe de ser um mito.

29 maio 2007

Um Momento, Uma Vida


Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória. Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me comprazo na terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam. Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre. Salmos 73.24-26

Momento: um instante, milésimos de segundos que podem se tornarem muito importantes. Momento, algo que tantas vezes é desprezado por uns e por outros lembrado constantemente, à hora certa que acontece alguma coisa, uma oportunidade. Vida, palavra difícil de conceituar, mas que tentando podemos definir como presente de Deus, existência, período de alegrias e decepções. Adoração a Deus: o fim principal dos seres humanos, pois fomos criados para sua glória. Como está escrito em Isaías 43.7: “A todos os que são chamados pelo o meu nome, e os que criei para a minha glória, e que formei, e fiz”. Adoração está no centro da nossa existência, é a nossa razão de ser.
Hoje é o momento de nossas vidas onde estamos reunidos com intuito de adorarmos a Deus, porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas (Rm. 11.36). Mas quantos de nós seguimos o exemplo do salmista, onde o conselho do Senhor o guiava, e ele sabia que não existia outro Deus que pudesse ajudá-lo, conduzi-lo. Cuja adoração não consistia em momentos, mas em uma vida inteira de adoração, pois ele tinha a certeza que o Senhor era a sua herança para sempre. Que possamos usar esse momento para refletirmos se realmente estamos constantemente adorando ao nosso Deus, pois como diz o poeta: “Uma vida sem reflexão não vale apena ser vivida” (Shakespeare). Alguém que adora a Deus somente um dia na semana está negligenciando essa tarefa, e não é apto para participar do Reino.
Lembro-me dos momentos de alegria do povo de Israel quando atravessaram o mar obedecendo à ordem do grande Eu Sou, o mesmo povo que antes tinha passado por momentos de escravidão e perseguição, mas que agora do outro lado do mar cantavam louvando a Deus porque Ele tinha triunfado gloriosamente: “A profetisa Miriã, irmã de Arão, tomou um tamborim, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamborins e com danças. E Miriã lhes respondia: Cantai ao Senhor, porque gloriosamente triunfou e precipitou no mar o cavalo e o seu cavaleiro” (Ex.15.20-21). Deus tinha escolhido o povo de Israel “somente para ele” e para tornarem-se um reino de sacerdotes e nação santa. Um momento de expressão de louvor daquele povo, como tantos outros que aconteceram, que estava contido em toda uma existência de adoração. Também somos propriedade particular do nosso Deus, e é o nosso dever adorá-lo não somente por um momento, mas por toda nossa vida, onde estivermos, com quem estivermos.
Um momento de adoração é o fruto de uma vida dedicada a Deus, de um contínuo andar junto dEle. E somente aqueles que foram regenerados por Cristo Jesus e nasceram do Espírito podem cantar a nova canção. Um homem não pode simplesmente dizer que está na presença de Deus e em sua caminhada não faz quilo que é vontade dEle, se não reconhecem que é um pecador e precisa ser purificado e transformado, se em seu coração não reconhecem a necessidade de buscar a Deus a cada instante como orava o salmista: “Ao meu coração me ocorre: buscai a minha presença; buscarei, pois, Senhor, a tua presença (Salmo 27.8)”. Na adoração o homem reconhece a sua pequenez e a grandiosidade de Deus, sabe que é um pecador diante de um Deus Santo e justo.
Encontramos em nossos dias muitas pessoas que confundem adoração com emocionalismo. Uma adoração estranha, que se resume a um domingo a noite ou a momentos como este. Com pessoas que cantam que querem subir, mas não sabem para onde, que pedem ao Senhor para derramar a sua chuva, mas chuva de quê? Como também cantamos as palavras do salmista: “a quem tenho eu no céu além de ti”? Mas não compreendemos o real significado dessas palavras, pois se as compreendêssemos saberíamos que ele está falando de uma vida inteira na dependência de Deus. Não há outro em que me comprazo na terra é o mesmo que afirmar que nada mais nos satisfaz se não estivermos na presença de Deus. Mas muitos de nós quando saímos da igreja nos tornaremos pessoas diferentes, esquecemos da alegria desse momento, esquecemos que devemos estar sempre na presença do Senhor e começaremos a agir de maneira egoísta, sem o amor que Deus tanto deseja que tenhamos. Adoração é dizer nos momentos de alegria a quem tenho eu no céu além de ti para adorar e nos momentos de sofrimento e tristeza não há nada que me satisfaça além de Ti.
“Contemplar, temer, adorar sua majestade; participar de suas benções; procurar sua ajuda em todos os tempos; reconhecer e por louvores celebrar, a grandeza de suas obras – como único fim das atividades desta vida” (João Calvino). Que estejamos em todos os momentos adorando a Deus em sinceridade com nossas vidas, pois Adoração é um momento, é uma vida.