11 novembro 2009

Quase (Érico Veríssimo)


Esse texto segue a mesma linha do anterior. O encontrei na internet, não sei se pertence realmente ao Érico Veríssimo, nem se chama "Quase".

“Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.

É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém,preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo.

De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu. ”

Morre Lentamente (Pablo Neruda)


Há um bom tempo não escrevo no blog. Estava empenhado em terminar minha monografia. Nessa volta queria compartilhar um texto do poeta chilene Pablo Neruda.

"Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar,
morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoínho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida a fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante…

Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples fato de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio pleno de felicidade."

07 setembro 2009

Duas Decisões Importantes




Reunimo-nos nessa sexta-feira para tomarmos decisões importantes. Essa geralmente é nossa rotina e dever como líderes da igreja, zelar pelo testemunho puro da comunidade e o cumprimento de sua “santa doutrina”. Eis as questões: tínhamos um terreno e um asilo pediu para utilizar, pois não existia um lugar que eles pudessem ocupar no momento. A outra questão era que, duas irmãs idôneas tinham visto uma moça da igreja sair de um motel.

Primeiro decidirmos sobre o nosso caso administrativo. Tínhamos duas opções: doar o terreno ou emprestá-lo. Aliás, terreno que em vinte anos nunca foi utilizado para nada. A primeira reação foi uma grande indignação porque não organizamos naquele lugar um ponto de pregação em todo esse tempo. Superada essa barreira, veio o que mais me surpreendeu. A minha opinião que doássemos o terreno e fizéssemos um projeto que pudesse ajudar essa instituição foi rebatida com outra opinião, defendida com unhas e dentes por alguns. A ideia deles era que emprestássemos o terreno por um período e que tivéssemos alguém da nossa igreja na diretoria desse asilo. Meu discurso foi tido como filosófico, bonito e utópico, algo fora da realidade.

A minha opinião, primeiramente baseava-se em uma questão de ética e responsabilidade: não podemos fazer algo que não sabemos fazer. Falo da questão da diretoria, o asilo tinha uma diretoria que estava fazendo seu trabalho corretamente, não posso simplesmente chegar e invadir seu espaço. Segundo, nossas igrejas têm algo que gostaria de classificar como “mania do poder”. Achamos que para servir temos que estar no controle de tudo. Nossos pastores e líderes já não acompanham o crescimento de suas ovelhas, ovelhas que como crianças deveriam ser nutridas pelo puro leite espiritual para cresceram, mas o que elas têm recebido as torna em eternas crianças que nunca crescem (I Pe. 2,9). Desejamos controlar todos que estão ao nosso lado, pois fora de nós não salvação e nem outra verdade. Nós somos a verdade!

Fui acusado de pregar um evangelho que não busca a salvação da alma do homem, mas que se resume a ação social, ou um marxismo, resumindo, uma teologia da libertação. Entretanto, o que eu gostaria era viver um evangelho não somente em palavras, mas procurar trazer sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em meu corpo (II Co 4,10). O meu Senhor Jesus deixou-me claro que o reino de Deus é dos pobres, daqueles que buscam a justiça (Mt 5,1-11, Lc 6,20). Que eu deveria anuncias as boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos. Aprendi com Ele que bem-aventurado é aquele que dar sem esperar nada em troca, é doar àqueles que não podem retribuir. (Lc 14,14).

Sobre a igreja faço minhas as palavras de Frederico Stein: “Não gosto do título de “sacerdote”, que lembra o culto do templo de Jerusalém e de todos os cultos das religiões pagãs da antiguidade. [...] Talvez seja melhor acabar com todo tipo de enfeite especial, tanto para homens quanto para mulheres a serviço das comunidades.” E sonho juntamente com José Luiz Cortés: “A igreja que eu quero não tem sinos: as pombas se encarregam de avisar o povo. [...] Claro que nesta igreja haverá também um papa! Mas um papa caseiro, com chinelos de lã, mais pai do que papa, mais santo do que o Santíssimo. E se ele se pode chamar José, ninguém deverá chamá-lo de ‘pio’ [...]. Minha igreja não se enfeita, nem anda com objetos de ouro; tem humor, conta piadas [...]. Eu sempre penso que, se tirarmos a roupa de qualquer pessoa, suas jóias e seus títulos, ficará muito pouquinho, mas bom e autêntico.”

Ah, quase esquecia. Temos o segundo caso, a jovem no motel. Não é muito importante, não se trata de um terreno nem de bens. A nossa decisão foi rápida. “Pastor, verifique se foi verdade e aplique o código disciplinar da igreja”.

01 setembro 2009

A truta - Luís Fernando Verissimo (O Globo, 23-08-2009)


Recebi essa crônica por e-mail da minha amiga Mariana, que faz muito tempo que não a vejo,acho que tô precisando participar de algum encontro nacional, não é verdade Mariana? Mas bem, a crônica é do Luíz Fernando Veríssimo, é sobre omissão. Mas desejo que você tire suas próprias conclusões. Boa leitura:

O homem pediu truta e o garçom perguntou se ele não gostaria de escolher uma pessoalmente.

- Como, escolher?

- No nosso viveiro. O senhor pode escolher a truta que quiser.

Ele não tinha visto o viveiro ao entrar no restaurante. Foi atrás do garçom. As trutas davam voltas e voltas dentro do aquário, como num cortejo. Algumas paravam por instante e ficavam olhando através do vidro, depois retomavam o cortejo. E o homem se viu encarando, olho no olho, uma truta que estacionara com a boca encostada no vidro à sua frente.

- Essa está bonita... - disse o garçom.

- Eu não sabia que se podia escolher. Pensei que elas já estivessem mortas.

- Não, nossas trutas são mortas na hora. Da água direto para a panela.

A truta continuava parada contra o vidro, olhando para o homem.

- Vai essa, doutor? Ela parece que está pedindo...

Mas o olhar da truta não era de quem queria ir direto para uma panela. Ela parecia examinar o homem. Parecia estar calculando a possibilidade de um diálogo.

Estranho, pensou o homem. Nunca tive que tomar uma decisão assim. Decidir um destino, decidir entre a vida e a morte. Não era como no supermercado, em que os bichos já estavam mortos e a responsabilidade não era sua - pelo menos não diretamente. Você podia comê-los sem remorso. Havia toda uma engrenagem montada para afastar você do remorso. As galinhas vinham já esquartejadas, suas partes acondicionadas em bandejas congeladas, nada mais distante da sua responsabilidade. Os peixes jaziam expostos no gelo, com os olhos abertos mas sem vida. Exatamente, olhos de peixe morto. Mas você não decretara a morte deles. Claro, era com sua aprovação tácita que bovinos, ovinos, suínos, caprinos, galinhas e peixes eram assassinados para lhe dar de comer. Mas você não estava presente no ato, não escolhia a vítima, não dava a ordem. Não via o sangue. De certa maneira, pensou o homem, vivi sempre assim, protegido das entranhas do mundo. Sem precisar me comprometer. Sem encarar as vítimas. Mas agora era preciso escolher.

- Vai essa, doutor? - insistiu o garçom.

- Não sei. Eu...

- Acho que foi ela que escolheu o senhor. Olha aí, ficou paradinha. Só faltando dizer ''Me come''.

O homem desejou que a truta deixasse de encará-lo e voltasse ao carrossel junto com as outras. Ou que pelo menos desviasse o olhar. Mas a truta continuava a fitá-lo. Ele estava delirando ou aquele olhar era de desafio?

- Vamos - estava dizendo a truta. - Pelo menos uma vez na vida, seja decidido.

Me escolha e me condene à morte, ou me deixe viver. A decisão é sua. Eu não decido nada. Sou apenas um peixe, com cérebro de peixe. Não escolhi estar neste tanque. Não posso decidir a minha vida, ou a de ninguém. Mas você pode. A minha e a sua. Você é um ser humano, um ente moral, com discernimento e consciência. Até agora foi um protegido, um desobrigado, um isento da vida. Mas chegou a hora de se comprometer. Você tem uma biografia para decidir. A minha. Agora. Depois pode decidir a sua, se gostar da experiência. O que não pode é continuar se escondendo da vida, e....

- Vai essa mesmo, doutor? - quis saber o garçom, já com a rede na mão para pegar a truta.

- Não - disse o homem. - Mudei de ideia. Vou pedir outra coisa.

E de volta na mesa, depois de reexaminar o cardápio, perguntou:

- Esses camarões estão vivos?

- Não, doutor. Os camarões estão mortos.

- Pode trazer.

20 agosto 2009

Paixão pela Vida


Dias atrás postei um texto da Marina Colasanti sobre o título Eu sei, mas não devia. A Marina chamou-nos atenção para o fato que estamos nos acostumando com as coisas ruins que acontecem a cada dia, querendo poupar nossas vidas de tantas eventualidades tristes e amargas acabamos vivendo de maneira apática. Ela não está só em seus argumentos.

Jürgen Moltmann, teólogo reformado, chegou à conclusão que o mal e o sofrimento não são maus, mas sim a indiferença. O mal é nos tornarmos insensíveis aos acontecimentos desagradáveis. Ele chama esse mal de apatia, que originalmente significa “ausência de sofrimento”, e essa é uma doença não apenas da sociedade, mas também dos indivíduos. Como no passado, ainda acreditamos que essa seja a mais alta virtude dos deuses e dos homens.

“Estamos procurando viver uma existência sem sofrimento, alegrias sem dor e comunidades sem conflitos. É o que chamamos de felicidade” (Moltmann). Individualmente temos perdido nossos sentimentos e confundimos emoções em beneficio do sucesso e do trabalho. Com a filosofia que “só nos realizamos no trabalho” ocultamos sofrimentos e decepções. Aqueles que não trabalham como nós, não porque não querem, mas porque não lhes foram dadas as condições necessárias, chamamos simplesmente de vagabundos. Na nossa vida social, afastamos da vida pública os que não rendem, isto é, os doentes, os defeituosos, os fracos e os fracassados. A esses, que clamam por comunidade e amor, oferecemos os programas de assistência social, uma maneira de mantê-los sempre em seus lugares, pobres, fracassados e dependentes, e de tirar de nós um pouco da nossa culpa, pois afinal, “estamos fazendo o possível para o bem deles”.

Diante dessa situação, Moltmann chega à conclusão que “os que hoje, quiserem viver, precisarão viver conscientemente. Terão de aprender a amar com muita paixão para que não se acostumem com as forças da destruição”. O que anima ele nessa caminhada é a imagem de Cristo. Sua paixão o levou-o ao sofrimento na cruz. Nessa paixão e dor ele vê muito bem a paixão de Deus que nos dá força para resistir à morte.

O Deus do Antigo Testamento é um Deus que se tornou vulnerável ao amor. Quando Israel o abandonou e se deixou levar pelos ídolos, sua paixão pela liberdade desse povo fê-lo sofrer. Caminhou ao lado de Israel na direção do exílio, participando de seu sofrimento. Irou-se por causa dos pecados incoerentes do povo. “Quem vive em comunhão com esse Deus apaixonado não pode permanecer apático”. No Novo Testamento acha-se a história do sofrimento de Cristo. Somente a entenderemos na paixão que a tornou possível. Na paixão de Cristo a paixão de Deus se confunde com a nossa. Nela sentimos o amor de Deus e as dores do meu próprio corpo.

Sobre Jesus, Moltmann afirma: “a vida de Jesus não nos consola para uma vida no além nem apenas transmite esperança para o futuro. Ela nos orienta para a encarnação, a humanização e a salvação ao aceitar os perseguidos e ao reativar as relações humanas adormecidas”. A história de sua paixão tinha que ser assim, pois a paixão pela vida só se comunica quando os que a sentem estão prontos a sofrer. “A paixão que nos liberta para a vida só se efetiva ao se sacrificar. Jesus cria vida entre os que sofrem porque os amam e não por causa do grande poder”. Ele conclui que o segredo da paixão de nossa vida é que: “A vida humana só é viva quando experimenta o amor e a afirmação. Quanto mais amarmos a vida com paixão, tanto mais intensamente encontraremos a felicidade”.

Diariamente, nos jornais, as notícias sobre sofrimento e dor são inúmeras. Moltmann estava certo quando afirmou que já não há mais paixão pela vida, as relações humanas estão adormecidas. Precisamos nos entregar apaixonadamente a vida, vivê-la sem medo de perdê-la, “porque quem quiser guardar a própria vida perdê-la-á, mas aquele que perdê-la usando-a, a ganhará. Quando não ousamos a amar, seguramos a vida”. Se não formos realmente apaixonados pela vida, continuaremos a andar em nossas cidades com medo dos assaltos a luz do dia, a sermos indiferentes a dor do próximo, ao faminto que pede nossa ajuda. Ficaremos indiferentes a vergonha de ter políticos corruptos, que não fazem o menor esforço em esconder “seus atos secretos”. Não podemos deixar nos contaminar com essa doença chamada apatia, se temos que sofrer pela vida, que soframos, pois só assim viveremos.

14 agosto 2009

Percepções sobre o Pequeno Príncipe


Acabei de ler O pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry. Por favor, não me recrimine por ler essa obra apenas agora. Mas estava ocupado demais fazendo outras coisas mais importantes do que ler um livro que me parecia infantil.

Nessa leitura me senti como “essas pessoas grandes que não compreendem nada sozinhas”, onde muitas vezes mato os sonhos de uma criança por achar que não são de grande valor. Refletindo sobre esse texto percebi que deixei que sementes más crescessem em minha vida, não aprendi a separar as rosas dos baobás. Isso tudo porque não fui disciplinado, não me habituei a arrancar todas as manhãs os “baobás logo que se diferenciavam das roseiras.

Como adulto desejei ser rei, mesmo que não existisse nenhum súdito. Mesmo que as minhas ordens fossem razoáveis, não as davam por amor, mas para que a minha autoridade não fosse desrespeitada. Os outros homens eram apenas os meus admiradores, e o que importava não era a amizade verdadeira, afinal, “os vaidosos só ouvem elogios”, não estão prontos para as críticas e questionamentos. Ocupado demais e sério demais os meus novos amigos eram tratados em números: “Qual é a sua idade? Quantos irmãos têm? Quanto pesa? Quanto ganha o seu pai?” Não mais perguntava: “qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que preferem? Será que ele coleciona borboletas”?

Entretanto, hoje descobri que o importante é construir relacionamentos. Ser como uma criança que ama a sua flor por ela ser única, afinal foi essa flor que ele regou, colocou sobre uma redoma e a abrigou com o pára-vento. “Foi essa flor que ele escutou queixa-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes”. Aprendi que amizades se constroem a partir do momento que eu consigo cativar quem está ao meu lado, e que cativar é criar laços, e que quando criamos laços, o nosso amigo será único no mundo e eu serei único para ele. E no fim “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

Enfim, se não nos fizermos como crianças nunca entraremos no reino dos céus (Mateus 18,3). Então me permita voltar a ser criança e deixe que eu fale sobre jibóias, elefantes, florestas virgens e estrelas, afinal, “as pessoas grandes são decididamente estranhas, muito estranhas”.

P.S. Essas são as minhas percepções sobre o Pequeno Príncipe, talvez não sejam as suas. Não faz mal, “quando o mistério é impressionante demais”, a gente escreve “não ousa desobedecer”.

“Só se ver bem com o coração; O essencial é invisível aos olhos” (Antoine de Saint-Exupéry).

07 agosto 2009

De mão em mão


Hoje o meu dentista chegou atrasado, isso me custou caro, já que na minha saída tive que pegar o busão em horário de pico.
Quando vi o ônibus se aproximando da parada, logo dei minha mão, gesto desnecessário, já que quase todas as pessoas deram a mão pra ele parar. Entrei como quem voa, levado pelos braços da massa. Lá dentro do ônibus me senti um vitorioso, tinha conseguido o melhor lugar em pé.
Mas uma experiência nesse dia me ensinou muito. Temos que aprender a captar nos menores gestos vestígios do Reino de Justiça. Pois bem, tentei fazer isso. Logo a frente uma mulher grávida deu a mão. O motorista para, abre a porta da frente, ela entra e senta, só que não pode ir até o cobrador e pagar a sua passagem. Realmente, como ela passaria em um lugar tão apertado como um ônibus lotado e em horário de pico. Daqueles tipos que a lei da impenetrabilidade é colocada em dúvida. Ah, se o Arquimedes tivesse comigo, eu provaria que dois corpos podem sim ocupar o mesmo lugar.
Então precisaríamos de uma solução para o impasse. Brilhantemente ela entrega o seu vale-transporte eletrônica para a segunda cadeira e pede que passe de mão em mão até chegar ao cobrador. No ônibus todos ríamos com a situação. Era engraçado aquele cartão passando de mão em mão para resolvermos aquele problema sem aparente solução.
Enquanto o cartão viajava de mão em mão pensei: é melhor serem dois do que um... Um cordão de três dobras não se quebra tão depressa (Ec 4,9-12). Fazer algo sozinho não tem graça, não tem amor, não se aprende a ter confiança. Somos livres quando aprendemos que outro é o nosso irmão, não o nosso opositor. Junto realizamos uma tarefa simples, mas fizemos juntos. O nosso mundo seria melhor, se aprendêssemos a trabalhar em conjunto, sem rivalidades, sem esse sentimento que para que eu vença o outro tem que perder. É necessário saber que a verdadeira vitória é quando eu venço e outro vence também.
Enfim, o impasse do ônibus foi resolvido e o cartão devolvido para a dona. Nós naquele ônibus apertado bem que merecíamos alguns aplausos pelo nosso grande feito em conjunto, simbolicamente, mostramos ao mundo que tudo feito em união sai melhor, mais alegre e simples.

02 julho 2009

Michael Jackson e a saga humana


Jorge Camargo

O som de Michael nunca fez minha cabeça, embora reconheça nele um extraordinário talento, uma incrível criatividade e uma enorme sensibilidade.

No entanto, sua trajetória como artista e como homem tem muito a me dizer. E fala (chega até mesmo a gritar) sobre o que temos de mais humano: nossa capacidade de transcender a nós mesmos através de nossas realizações, de nossa inventividade, de nossa arte, e assim eternizarmos nossa obra. Já dizia Sêneca: “Longa é a arte, breve é a vida”.

Sua senda também me ensina sobre nossa vocação, como seres humanos, para apresentarmos no palco da vida um espetáculo inusitado e surpreendente, repleto ora de elementos de glória sublime, ora de tragédia pungente.

E isso é comum a todos nós. Todos tivemos, temos ou teremos momentos singulares de realização, de contentamento, de vitória. E também já vivemos ou viveremos tempos de dor, de luto, de vergonha, de desterro.

Esse é o caminho dos que são a coroa desta criação. Esse foi o caminho descrito no livro sagrado que o Cristo de Deus percorreu.

Da eternidade em harmonia triúna ele se esvazia tomando a forma de escravo, vivendo entre os homens, morrendo entre ladrões. E é então exaltado, recebendo o nome que está acima de todo nome.

Poderia ocupar o espaço falando dos escândalos, das dívidas, do isolamento, das deformações físicas e psicológicas que sempre ocuparam o cotidiano do ser humano Michael.

Prefiro, no entanto, refletir sobre minhas próprias imperfeições, distorções, incoerências e enfermidades que, aliás, todos temos em diferentes formas e momentos.

E nisso tudo, “don’t matter if you’re black or white!”.


• Jorge Camargo, mestre em ciências da religião, é intérprete, compositor, músico, poeta e tradutor. www.jorgecamargo.com.br

18 junho 2009

Lembranças de algo que não há

Rodrigo de Lima Ferreira


No último domingo, celebrei a Ceia na igreja que pastoreio. Para mim, é um momento importante, quando vivenciamos um mistério, que é a presença de Jesus nos elementos e no culto. Na verdade, não dá para explicar aquilo que nós reformados chamamos de “sacramento”. No máximo, podemos compartilhar a experiência.

Enquanto me lembrava do culto e do momento da Ceia, da alegria de partilhar da mesa do Senhor com gente tão pecadora quanto eu, mas também tão alcançada pela graça salvadora de Jesus, comecei a ficar triste.

Não por causa do culto em si, nem pela igreja que pastoreio. Muito menos pelas pessoas de lá. Minha tristeza se deu por causa de um cansaço.

Acho que estou cansado, estafado, esgotado. Não se trata de cansaço físico, que uma boa noite de sono resolve, nem de cansaço ministerial. Estou cansado é dos rumos que a igreja evangélica brasileira anda tomando. Em contraste com a santidade e a intimidade que o Senhor nos proporciona, lembradas pela celebração da Ceia, vivemos tempos muito ruins. Parafraseando Frank Peretti, estamos vivendo em um mundo tenebroso. Não temo em afirmar que rumamos para uma grande apostasia.

A fé bíblica deixou de ser parâmetro para o ser cristão. Hoje as pessoas buscam cada vez mais ter experiências sensoriais, ainda que em total afronta às Escrituras. Bíblia? Ora, para quê Bíblia, se hoje temos profetas, bispos e apóstolos ungidos, vindo diretamente do trono de Deus, sem nenhuma chancela do Espírito Santo e de seu corpo, que é a Igreja (não confundir com “igrejas”) aqui na terra? Por que gastar tempo lendo e interpretando uma literatura em sua maior parte de origem semita, produzida há cerca de 2 mil anos, se hoje temos DVDs, CDs e outras bugigangas que trazem o alento necessário às almas ocas? Por que se importar em ser pastoreado de modo saudável, se hoje não nos importamos mais em viver um verdadeiro renascimento medieval? Se hoje se cobra um módico preço de cada incauto para que ele seja abençoado por Deus através de gente que confunde estética metrossexual com intrepidez ministerial? Em nossos tempos, não é melhor cantar “Restitui” do que “Tudo a Ti, Jesus, entrego”?

Sempre que posso, procuro alertar as pessoas sobre como a igreja evangélica brasileira tem se transformado nessa espécie de “Sodoma gospel”, onde as pessoas, ainda que religiosas, são más e agem contra o Senhor (Gn 13.13). Fico feliz com a igreja que pastoreio hoje, que tem sido receptiva àquilo que procuro alertar. E sei também de outras comunidades e igrejas locais onde se busca o evangelho verdadeiro. Mas sei também que estamos nos tornando exceção.

Sinto saudades do tempo em que as aberrações eram prontamente identificadas e rejeitadas, um tempo em que o “deus-mercado”, o “deus-espelho” e o “deus-sucesso-a-qualquer-preço” ainda não tinham colocado as garras de fora. E isso tudo me entristece bastante.

Sei que Deus ampara os seus, não permitindo que fiquem atordoados (1Pe 2.6). Sei que estamos vivendo o cumprimento das profecias acerca da volta de Jesus (Lc 18.8), e que apareceriam falsos cristos e falsos profetas anunciando a “última revelação fresquinha” de Deus (Mt 24.5, 23, 24) — o que de fato já está ocorrendo. Mas a vida ministerial tem dessas coisas. Que Deus me ajude a olhar mais para suas promessas, que refrigeram o coração e a alma (Sl 19.7), enquanto andamos no seu caminho.


• Rodrigo de Lima Ferreira, casado, duas filhas, é pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil desde 1997. Graduado em teologia e mestre em missões urbanas pela FTSA, hoje pastoreia a IPI de Rolim de Moura, RO.

07 junho 2009

O Caminho de Justiça


Em alguns instantes de nossas vidas estamos sentados a beira do caminho, sem nenhuma perspectiva para continuarmos e com os nossos sonhos destruídos. Viver nesse mundo não tem sido fácil, os problemas de nossa sociedade parecem serem maiores do que nossa força de luta por algo diferente e, por isso, ficamos acomodados e achamos que todas as coisas são normais. É normal trabalhar sem parar e ganhar um salário que mal dá para sustentar a família, é normal descer os nossos morros e encontrar jovens armados e outros mortos pelo caminho, é normal saímos de casa como se estivéssemos fugindo de alguma coisa, quando na verdade é o nosso medo de sermos assaltados na primeira esquina. É normal encontrarmos crianças sujas e trabalhando, quando deveriam estar na escola estudando para ser um adulto melhor. É normal nos conformarmos com mal, achando que ele é irreversível e que não podemos fazer nada para mudar essa situação.
Em Marcos 10,46-52 encontramos a história do cego Bartimeu. Primeiramente ele não é uma “coisa”, tem uma identidade, tem um nome, é uma pessoa, é um ser humano e se chama Bartimeu. Isso é importante em nossos dias, quando costumamos rotular as pessoas por causa dos seus pecados e daquilo que elas fazem, o José deixa de ser José e passa ser o gari, o Francisco não é o Francisco, mas sim o mendigo que está sentado no sinal todos os dias, “Carlas”, “Marias”, “Antônias” deixam de ser mulheres porque a sociedade as rotulam como prostitutas, mendigas, seres sem nenhum valor. Olha-se o pecado, mas não se percebem a vida que está ali. No reino de Deus, as coisas são diferentes, as pessoas são pessoas, nos seus erros e nas suas possibilidades e potencialidades. O cego de nossa história não é simplesmente o cego, é Bartimeu, o filho de Timeu.
E Bartimeu estava sentado na beira do caminho. Não incomodava ninguém, pois nem na cidade estava, de certo como era costume na época não encontrou lugar na cidade, pois além de cego era mendigo, não representando nada para a sua sociedade. Sentado na beira do caminho é apenas uma paisagem, triste paisagem. Mas quando ele escuta que Jesus de Nazaré está passando por aquele lugar ele começa a gritar: “Jesus, Filho de Davi tem misericórdia de mim”. Essas palavras têm um grande significado naquele momento. Israel estava sob o domínio dos romanos que consideravam como único rei César, então dizer que Jesus era o filho de Davi era o mesmo do que dizer que ele era Rei e Senhor. Por isso, o grande desprezo por parte das pessoas que estavam ali, mandando que ele se calasse e não incomodasse o mestre, não queriam problemas com Roma e ainda mais causados por um “cego”. Mas a perseverança de Bartimeu era incrível, não se calou diante da multidão conformada com sua situação de opressão: Jesus é o Filho de Davi. Então Jesus manda trazer o Bartimeu até ele que vai rapidamente, largando fora a sua única forma de sustento, a sua capa. A certeza era que sua vida agora seria diferente, os sonhos, a coragem para lutar, para ousar, para fazer justiça que tinha aflorado quando ouviu que Jesus passava por ali, começa a torna-se realidade. Então a pergunta de Jesus é que queres que eu te faça? A resposta era óbvia, todos sabiam, mas Deus não é um Deus intrometido, é um Deus que constrói junto. Era necessário ouvir de Bartimeu o seu pedido, para mostrar que ele era importante, que ele tinha voz, que Deus escutava sua voz. Curado, Bartimeu passa a seguir a Jesus, diferente dos apóstolos que se preocupavam em discutir quem seriam o maior no reino dos céus (Mc 8,22) e do jovem rico que não teve coragem de deixar tudo e seguir a Jesus (Mc 10,22). Bartimeu era um cego que via, que Jesus era o Filho de Davi, quando os apóstolos e o jovem rico não viram. Portanto, ele viu quando mais ninguém viu, a possibilidade de mudar o rumo da história.
Diante disso resta-nos seguir o exemplo bíblico, sermos perseverantes na luta pela justiça, erguer a nossa voz, mesmo que ela incomode alguns. Construir juntos com Deus um reino de justiça. Não nos conformamos com as injustiças, com o sofrimento e o mal, mas como Bartimeu, saímos da beira do caminho e caminharmos ao longo dele com a certeza que Deus escuta a nossa voz, o nosso clamor. Afinal de contas: “Como são belos os pés daqueles que anunciam boas notícias”(Rm 10,15).

04 junho 2009

Graça Abundante


Reflexões finais da América Latina
"Graça, cruz e esperança" é o tema de um estudo comunitário, de amplitude continental, realizado na América Latina. O estudo constitui um desafio para que reflitamos sobre a graça em meio a um mundo marcado pela "desgraça". Há tanta pobeza, e tanta injustiça na terra... E as realidades da dor, do sofrimento, do desespero, que tanto afetam a vida do nosso povo, estão bem presentes entre nós. É possível falar da graça de Deus quando estamos sob o peso de tanta angústia?
Tendo ouvido as nossas igrejas e tomado o pulso do nosso continente, nós, teólogos e especialistas da Bíblia, de diferentes denominações e correntes teológicas na América Latina, chegamos à conclusão de que nosso povo está em busca de uma compreensão mais profunda da graça de Deus, e está esperando a manifestação da bondade e misericórdia de Deus, que como pai e mãe acolhe todos os seus filhos e os convida para uma vida plena de confiança e esperança.
Não são muitas as palavras que sejam tão centrais na Bíblia como a palava "graça". A exemplo de Santo Agostinho e dos reformadores do século 16, o teólogo suíço Karl Barth enfatizou a importante relação entre graça e gratidão (charis/eucharistia) e frisou que a graça deve ser o princípio fundamental da teologia, e que a gratidão deve ser a força propulsora da nossa ética. O Catecismo de Heidelberg afirma que devemos conhecer três verdades: o quão grande é o nosso pecado e miséria, o quão grande é a graça libertadora de Deus, e o quão agradecidos devemos ser pela graça de Deus.
Tudo, desde a criação (Gênesis 1.31), passando pela escolha de uma nação destinada a ser uma bênção para todas as nações, e culminando na encarnação do Filho de Deus (João 1.14), tudo isso constitui clara evidência da graça, generosidade e favor de Deus para com a criação inteira (Salmo 104).
A Bíblia não ignora a imensidão do pecado humano; e a cruz, que comprova essa tragédia, não deixa margem a qualquer falso otimismo a respeito. Essa sombria realidade, que levou à formação de todo um sistema sacerdotal e sacrificial, é confrontada pela gratuidade da ação de Deus. Nas palavras do apóstolo Paulo, "...onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Romanos 5.20).
No início do seu ministério, Jesus se alinhou com a tradição profética do anúncio do jubileu libertador e do ano aceitável do Senhor (Lucas 4.18-21). Perdão, vida abundante, novo começo da história humana, tudo isso esteve sempre pesente na vida e ministério de Jesus. Seu amor pelos pobres, enfermos, crianças, pecadores, prostitutas e abandonados era parte integrante da proclamação que ele fez em Nazaré. A gratuita graça divina de uma nova vida em Cristo é a resposta à história de rebeldia humana contra Deus. Jesus não exige mérito nas pessoas que ele chama; pelo contrário, é aos "cansados e sobrecarregados" que ele promete repouso e bem-estar. Sua própria morte na cruz, manifestação máxima do pecado – humano, individual e estrutural –, é transformada pela graça de Deus em confirmação da sua missão salvífica, mediante o sacrifício supremo.
O apóstolo Paulo descobriu o significado da graça gratuita de Deus durante a experiência que teve no caminho de Damasco. Ele sentiu-se aceito, apesar de não ter mérito algum. Na epístola a Filemon, em que se trata de um escravo fugitivo que é reenviado ao seu dono, este é exortado a acolher o escravo como um irmão. O relacionamento proprietário/propriedade não existe mais; tampouco, obrigação legal ou forçada. Prevalece agora a aceitação da irmandade, da comunidade, da nova realidade inaugurada por Deus em Jesus Cristo.
No mundo de hoje, há um sentimento generalizado de que tudo pode ser reduzido a mercadoria, que tudo tem um preço comercial, e que nada existe que seja de graça, nem mesmo um almoço amigo. A cultura dominante, da qual, de certo modo, somos todos, prisioneiros, baseia-se numa única diferenciação: produtores e consumidores. Importa, pois, voltar à idéia de Paulo de que, no relacionamento de Deus com as nações, tudo é gratuito; e que, no relacionamento de Deus com a criação, tudo é amor.
A Comissão Teológica Latino-Americana (CTL), sob os auspícios do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), formulou recentemente os seguintes pontos concernentes ao tópico "Graça, cruz e esperança":
A graça e o amor de Deus, gratuitamente oferecidos, são os meios que conduzem à vida cristã. A compreensão da disponibilidade incondicional de Deus, que nos aceita tal como somos, afeta nossa relação com a cultura em que nos encontramos e com o ecosistema inteiro: nada está fora dos desígnios do amor de Deus. E nada pode estar fora do interesse daquelas pessoas que se sentem integradas nesse desígnio. Porque somos libertados, libertaremos outras pessoas; porque somos amados, amaremos outras pessoas.
A experiência da graça traz-nos descanso e paz em Deus. A vocação da igreja é celebrar a bondade de Deus. Essa a razão pela qual o sentimento de celebração é parte de nossa vida cotidiana. Celebração é expressão do imenso júbilo daquelas pessoas que sabem que, em toda e qualquer circunstância, é Deus que tem a última palavra. O afeto e o apoio fraternal da comunidade de fé são sinais da dinâmica do amor de Deus, que nos aceita e nos reabilita. Celebração e louvor, portanto, exprimem nosso reconhecimento de que o amor de Deus nos é dado gratuitamente. Daí porque as igrejas, em vez de serem comunidades de normas e disciplinas, são comunidades de celebração, alegria, júbilo e esperança.
Em nossa região latino-americana, como também no mundo inteiro, o sistema econômico que marginaliza grandes setores da sociedade é anti-graça, é dis-graça. Enfrentamos um mercado desumanizante, sistemas políticos desacreditados, um sistema jurídico que favorece os poderosos, corrupção sistemática, perda de valores e conseqüente desmantelamento da família, da comunidade e da sociedade... Mas "Deus pode fazer-nos abundar em toda graça" (2 Coríntios 9.8). O dom da graça de Deus significa que a esperança de vida nos advém através da cruz. No contexto latino-americano, graça significa enfrentar as realidades da vida, a cruz, com esperança. A graça é o dom de Deus para enfrentarmos as condições de desesperança. Nossas igrejas são comunidades do Espírito, e é nelas que aprendemos a viver a graça de Deus em Cristo. Nem sempre é fácil agir segundo a vontade de Deus, ou viver conforme os valores do Reino. Parece que a graça, hoje, tende a ser reduzida a dois extremos: ora ela é vivida em forma de emoções extravagantes, ora é expressa em termos de catecismos absolutos e ortodoxias rígidas. Nenhum desses dois extremos é fiel ao Espírito do evangelho. Na sociedade moderna, cada mulher, cada homem, deve lutar para ser "alguém", para ter valor. Essa sociedade contraria a lógica da graça, e reduz o reconhecimento da dignidade humana a um critério seletivo e excludente.
É importante vincular graça e dignidade humana. Ambas se conectam com Deus e com o ser humano. Dignidade humana e graça divina são inseparáveis, porque não é possível viver a experiência da graça divina sem a experiência da dignidade humana. Onde não há dignidade humana, há ausência da graça divina. E onde há dignidade humana, estarão também presentes, de alguma forma, a graça e a glória de Deus. Sabemos que a graça de Deus, como bênção que nos vem do alto, caminha pelas nossas ruas e cidades, corre pelos nossos campos e aldeias, bate às portas dos nossos lares e comunidades, penetrando em nossas vidas e renovando nossa espiritualidade e nossos propósitos. Por isso podemos dizer que, com certeza, estamos vivendo o "kairos da graça", e esperando a sua abundância.


(Rev. Israel Batista, autor dessas reflexões finais, é cubano e secretário-geral do Conselho Latino-Americano de Igrejas - CLAI). Ele escreve em nome da Comissão Teológica Latino-Americana).

01 junho 2009

Deus viu que era bom


Esse é um texto do meu amigo Robson Barros. Como ele gosta muito de escrever e textos muitos bons, resolvi publicar um desses textos aqui, assim quando ele ficar famoso posso dizer que fui o primeiro a divulgá-lo na internet. Vamos ao texto:


Eu aprendi olhando o pôr do sol
Que o dia se despede com acenos cor de crepúsculo
Com a promessa de que voltará trazendo consigo uma porção de renovo
A um coração que vê o surgir da escuridão, que também tem seus traços de beleza.

Beleza essa que se torna invisível aos olhos da angústia,
Pois ela é pessimista demais para perceber os pontos,
Pontos de beleza no breu da escuridão azul.

Mas ela está brilhando e brilhando,
Às vezes se movendo rapidamente
Como discretamente querendo chamar atenção.

O dia nasce com propostas de misericórdia
Cumprindo o que havia prometido:
renovo, tranquilidade, esperança...

Os olhos já não podem ter mais desculpas
Para deixar de enxergar a beleza
Apesar de ela sempre estar aí,
Pois a própria vida é bela.

E DEUS VIU QUE ERA BOM!

Robson Barros
Recursos Humanos
Missão Betsaida
25/09/2008

14 maio 2009

Pobres Ateus por Ariovaldo Ramos

Em umas das minhas leituras nessa semana encontrei esse texto do Ariovaldo Ramos. Acho que alguns já conhecem, mas é bom sempre ler textos como esses mais de uma vez para que possamos refletir em nossas atitudes. Para aqueles que ainda não conhecem esse texto, fico com o comentário do Vinicius Alves: "Impossível não se emocionar e encher o coração de adoração com essas belas palavras".


Vamos ao texto:


Disseram-me que o ateísmo está crescendo.

Fiquei a pensar... Quem quer o mundo oco e solitário dos ateus?

Não eu!

Eu quero o mundo povoado dos cristãos, dos judeus, dos muçulmanos, dos animistas...

Quero um mundo onde a gente não esteja só.

Um mundo com anjos de pé e caídos.

De entidades, de elfos, de mística, de mágica, de mistérios...

Quero o mundo onde os tambores invoquem.

Onde a multidão de línguas estranhas dos pentecostais façam os seres da escuridão retroceder.

Quero o mundo que produziu Beethoven que, surdo, dizia ouvir a música que Deus queria escutar, a quem aplaudiu na nona.

Que produziu Shakespeare, que disse que havia mais entre o céu e a terra, do que supõe a nossa vã filosofia, e que valia morrer por amor.

Que desafiou Mozart a zombar de Deus enquanto, qual o profeta Balaão, só conseguia emitir os sons que boca de Deus entoa!

Quero o encanto catártico de Haendell gritando ALELUIA! de forma arrebatadora!

A beleza de Bach nos fazendo ver a paz da Família Eterna.

Quero mundo das lindas e majestosas catedrais e dos pregadores das praças, das esquinas, dos caminhos...

Da riqueza sonora profunda dos cantos gregorianos e dos vociferantes pregadores: convocando os homens a mudar e o Espírito Santo a se levantar contra o mal.

Quero o mundo que faça um ser humano, diante a pior das borrascas, ver o seu salvador andando sobre o mar, anunciando a possibilidade.

Aquele em que o guerreiro, diante da incerteza, se ajoelha perante o Eterno e se levanta com um brilho nos olhos, certo de que tem uma missão, um motivo para brandir a espada, porque se há de correr o sangue humano, tem de haver uma razão, que dando significado a vida o faça não temer a morte.

Um mundo de poetas e romancistas, que fazem a morte gerar vida, que contam histórias porque, em meio ao mais insano, há algo para contar, e se há o que contar, então significa; e se há como contar, então há um significante anterior, de modo que, por mais que cada leitor possa, de alguma maneira, reinventar, ninguém consegue negar que leu e, se leu, podia ser lido.

Quero a fé que faz uma menina entrar numa das melhores faculdades do pais, sonhando que, um dia, tudo o que sabe ajudará um ser desprovido de tudo, num dos miseráveis cantões do planeta, a sorrir com esperança!

Quero a loucura dos missionários que abandonam tudo no presente, certos de que levarão milhares a viver o futuro.

Quem quer o socialismo frio do ateus?

Eu quero o socialismo dos crentes que, em meio à marcha dos trabalhadores e, diante do impasse do confronto com as forças do estabelecido, grita ao megafone: companheiros, avancemos! Deus está do nosso lado!

Da ciência não quero as equações, quero o grito de "Eureka!", onde o cálculo se mistura com a revelação.

Da matemática quero a música, a certeza de que há sons no universo, que não só os podemos cantar, mas que há quem nos ouve.

Que ouviremos a grande e última trombeta, que reunirá toda a criação para o canto da redenção.

Eu não quero capitalismo nenhum, mas prefiro o dos seres humanos que acreditavam que o trabalho é um culto ao Criador e que o seu produto tinha de gerar um mercado a serviço do bem.

Quem quer o capitalismo consumista dos ateus, que reduz a vida ao aqui e agora, e transforma todos em desesperados que, pensando que não sobrará para eles, correm para acumular para o nada?

Os ateus dizem que evoluímos, mas que não vamos para lugar nenhum; que a ciência pode tudo; que verdade é a palavra dos vencedores; que os mais fortes sobreviverão, e que é o direito natural deles.

Não! Mil vezes não!

Quero o mundo onde os fracos tenham direito ao Reino; onde os mansos herdarão a terra; onde os que choram serão consolados; onde os que têm fome e sede de justiça serão fartos; onde os que crêem na justiça estejam prontos a morrer por ela; onde os mortos ressuscitarão.

Quem quer um mundo explicado, onde tudo é virtude ou falha de um neuro-transmissor qualquer?

Quero um mundo onde a fé , o amor e a paixão curem, mudem histórias e construam caminhos! Onde os artistas tenham o que registrar!

Um mundo onde o sol nasça e se ponha, onde as estrelas, polvilhando o infinito, apontem um caminho, falem da esperança de uma grande e decisiva família, e que qualquer ser humano ao ver isso, não se envergonhe de falar: maravilha! Um Deus fez isto!

Mas não quero a teologia técnica...

Quero o Deus apaixonado dos cristãos, que abandona sua Glória e se faz gente, trazendo a divindade para a humanidade e, ressuscitado, ao voltar, leva a humanidade para a divindade!

Quero o Deus inquieto de Israel, o pai dos judeus, com quem é possível lutar.

Quero do Deus que se permite ser detido por um Jacó.

Quero o Deus chorão de Jesus de Nazaré, que mesmo a gente tendo brigado com Ele, nunca conseguiu brigar conosco.

O Deus Pai, Mãe e Filho que repartiu conosco o privilégio de ser!

Quero o mundo do medo do desconhecido, e do maravilhar-se com o desconhecido: o mundo do encanto.

Como disse o pai da filosofia moderna, o que se descobre ser ao pensar, precisa de um mundo para aterrissar, precisa que haja alguém que faça pensar valer a pena, alguém que, ao fim, é da onde se pensa, e se ele não existe, então nada existe, porque o que pensa não tem como pensar a partir de si.

Quero o mundo que ri da finitude; que desdenha das limitações; que resiste ao sofrimento; que olha para o infinito sabendo que nossa existência não é determinada pela morte ou por nossas impossibilidades; que não somos frutos de um acidente.

Quero mundo que se sustenta na fé de que ressuscitaremos, de que brilharemos como o sol ao meio dia; de que vale a pena lutar pelo bem; de que vale a pena existir!


* Ariovaldo Ramos é filósofo e teólogo, além de diretor acadêmico da Faculdade Latino-americana de Teologia Integral, missionário da Sepal e presidente da Visão Mundial. É membro da equipe editorial da Edições Vida Nova.

12 maio 2009

Eu sei, mas não devia (Marina Colasanti)

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(1972)


Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.


O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.