07 junho 2009

O Caminho de Justiça


Em alguns instantes de nossas vidas estamos sentados a beira do caminho, sem nenhuma perspectiva para continuarmos e com os nossos sonhos destruídos. Viver nesse mundo não tem sido fácil, os problemas de nossa sociedade parecem serem maiores do que nossa força de luta por algo diferente e, por isso, ficamos acomodados e achamos que todas as coisas são normais. É normal trabalhar sem parar e ganhar um salário que mal dá para sustentar a família, é normal descer os nossos morros e encontrar jovens armados e outros mortos pelo caminho, é normal saímos de casa como se estivéssemos fugindo de alguma coisa, quando na verdade é o nosso medo de sermos assaltados na primeira esquina. É normal encontrarmos crianças sujas e trabalhando, quando deveriam estar na escola estudando para ser um adulto melhor. É normal nos conformarmos com mal, achando que ele é irreversível e que não podemos fazer nada para mudar essa situação.
Em Marcos 10,46-52 encontramos a história do cego Bartimeu. Primeiramente ele não é uma “coisa”, tem uma identidade, tem um nome, é uma pessoa, é um ser humano e se chama Bartimeu. Isso é importante em nossos dias, quando costumamos rotular as pessoas por causa dos seus pecados e daquilo que elas fazem, o José deixa de ser José e passa ser o gari, o Francisco não é o Francisco, mas sim o mendigo que está sentado no sinal todos os dias, “Carlas”, “Marias”, “Antônias” deixam de ser mulheres porque a sociedade as rotulam como prostitutas, mendigas, seres sem nenhum valor. Olha-se o pecado, mas não se percebem a vida que está ali. No reino de Deus, as coisas são diferentes, as pessoas são pessoas, nos seus erros e nas suas possibilidades e potencialidades. O cego de nossa história não é simplesmente o cego, é Bartimeu, o filho de Timeu.
E Bartimeu estava sentado na beira do caminho. Não incomodava ninguém, pois nem na cidade estava, de certo como era costume na época não encontrou lugar na cidade, pois além de cego era mendigo, não representando nada para a sua sociedade. Sentado na beira do caminho é apenas uma paisagem, triste paisagem. Mas quando ele escuta que Jesus de Nazaré está passando por aquele lugar ele começa a gritar: “Jesus, Filho de Davi tem misericórdia de mim”. Essas palavras têm um grande significado naquele momento. Israel estava sob o domínio dos romanos que consideravam como único rei César, então dizer que Jesus era o filho de Davi era o mesmo do que dizer que ele era Rei e Senhor. Por isso, o grande desprezo por parte das pessoas que estavam ali, mandando que ele se calasse e não incomodasse o mestre, não queriam problemas com Roma e ainda mais causados por um “cego”. Mas a perseverança de Bartimeu era incrível, não se calou diante da multidão conformada com sua situação de opressão: Jesus é o Filho de Davi. Então Jesus manda trazer o Bartimeu até ele que vai rapidamente, largando fora a sua única forma de sustento, a sua capa. A certeza era que sua vida agora seria diferente, os sonhos, a coragem para lutar, para ousar, para fazer justiça que tinha aflorado quando ouviu que Jesus passava por ali, começa a torna-se realidade. Então a pergunta de Jesus é que queres que eu te faça? A resposta era óbvia, todos sabiam, mas Deus não é um Deus intrometido, é um Deus que constrói junto. Era necessário ouvir de Bartimeu o seu pedido, para mostrar que ele era importante, que ele tinha voz, que Deus escutava sua voz. Curado, Bartimeu passa a seguir a Jesus, diferente dos apóstolos que se preocupavam em discutir quem seriam o maior no reino dos céus (Mc 8,22) e do jovem rico que não teve coragem de deixar tudo e seguir a Jesus (Mc 10,22). Bartimeu era um cego que via, que Jesus era o Filho de Davi, quando os apóstolos e o jovem rico não viram. Portanto, ele viu quando mais ninguém viu, a possibilidade de mudar o rumo da história.
Diante disso resta-nos seguir o exemplo bíblico, sermos perseverantes na luta pela justiça, erguer a nossa voz, mesmo que ela incomode alguns. Construir juntos com Deus um reino de justiça. Não nos conformamos com as injustiças, com o sofrimento e o mal, mas como Bartimeu, saímos da beira do caminho e caminharmos ao longo dele com a certeza que Deus escuta a nossa voz, o nosso clamor. Afinal de contas: “Como são belos os pés daqueles que anunciam boas notícias”(Rm 10,15).