23 novembro 2012

Homens de Verdade Não Roubam



Lembro-me como se fosse amanhã do meu primeiro ato infracional, diga-se de passagem, o primeiro e último. Quando adolescente eu gostava de colecionar pequenos soldadinhos de plástico. Eu tinha vários soldadinhos e de uma diversidade de formatos enormes. Entretanto, em visita ao meu pequeno colega Alex, percebi que ele possuía algo que ainda não fazia parte de minha coleção. Fiquei apaixonado por aquele pequeno soldado que nas minhas tropas seria um general fantástico.

Desse momento em diante comecei a tramar o futuro roubo. Imaginei todas as formas de captação do objeto, como ocultar o dito cujo e as rotas de fuga. Tudo muito bem planejado, então dei prosseguimento à ação. Fiquei de frente para a porta de entrada da casa, movimentei com passos lentos até a mesa onde estava o objeto a ser subtraído, verifiquei se havia a presença de alguém, captei o objeto e o ocultei em minha boca. Logo depois empreendi fuga pela porta de entrada que estava a minha frente, com passos rápidos para não ter que iniciar uma conversa com ninguém.

Chegando a minha casa comemorei o sucesso da ação. Mas apenas por alguns minutos. Minha avó, conhecedora de todo o meu exército e arsenal militar, estranhou a presença daquele novo general.  Indagou-me de onde ele tinha aparecido. As minhas explicações não foram altamente convincentes e ela se viu na obrigação de avisar ao meu avô que o meu exército tinha um novo membro de procedência duvidosa. Nesse momento fui acometido de um frio na barriga digno daqueles que tem culpa no cartório e estão prestes a ser descobertos.

O que passo a narrar agora aconteceu quando o sol avermelhado se morre dando espaço a uma escuridão brilhante. Meu avô sentou-me numa cadeira e questionou-me sobre aquele pequeno soldado. Sem mais poder mentir diante da verdade que brotava dos seus olhos, expliquei a minha ação delituosa.   Disse que eu havia roubado da casa da Dona Chica e que o brinquedo pertencia ao Alex. Houve silêncio naquele vão da casa.

Depois do silêncio, como todo homem nascido no sertão, meu avô explicou-me a gravidade de minha ação. Olhou nos meus olhos e disse-me que homens de verdade não roubam. E intimou-me a fazer uma caminhada de restauração. Ele disse: "volte a casa de Dona Chica e devolva o que pertence a ela e ao seu filho, fala para ela que você roubou e que eu lhe ensinei que homens de verdade não roubam. Peça perdão e volte para o castigo”. Na caminhada que se seguiu a dor do castigo foi imensuravelmente menor do que a vergonha do pedido de perdão.

O constrangimento foi enorme, mas a recompensa ficou guardada até hoje.Sempre que vejo pessoas retirando coisas que não lhe pertencem, lembro do que o meu avô me ensinou: “Régis, homens de verdade não roubam”.

20 outubro 2012

O Mito da Hospitalidade



Júpiter, o deus criador e seu filho Hermes, quiseram saber como andava o espírito de hospitalidade entre os humanos. Travestiram-se de pobres e começaram a peregrinar pelo mundo afora. Foram maltratados por uns, expulsos por outros. 

Depois de muito peregrinar tiveram de cruzar por uma terra cujos habitantes eram conhecidos por sua rudeza. As divindades sequer pensavam em pedir hospitalidade. Mas à noitinha passaram por uma choupana onde morava um casal de velhinhos, Báucis e Filêmon. Qual não foi a surpresa, quando Filêmon saiu à porta e sorridente foi logo dizendo: Forasteiros, vocês devem estar exaustos e com fome. Entrem. A casa é pobre mas aberta para acolhê-los.

Báucis ofereceu-lhes logo um assento enquanto Filêmon acendeu o fogo. Báucis esquentou água e começou a lavar os pés dos andarilhos. Com os legumes e um pouco de toucinho fizeram uma sopa suculenta. Por fim, ofereceram a própria cama para que os forasteiros pudessem descansar. 

Nisso sobreveio grande tempestade. As águas subiram rapidamente e ameaçavam a região. Quando Báucis e Filêmon quiseram socorrer os vizinhos, ocorreu grande transformação: a tempestade parou e  de repente a pequena choupana foi transformada num luzidio templo dourado. Báucis e Filêmon ficaram estarrecidos. Júpiter foi logo dizendo: por causa da hospitalidade queroatender um pedido que fizerem. Báucis e Filêmon disseram unissonamente: o nosso desejo é servir-vos nesse templo por toda a vida. Hermes não ficou atrás: quero que façam também um pedido. E eles, como se tivessem combinado responderam: depois de tanto amor gostaríamos de morrer juntos. 

Seus pedidos foram atendidos. Um dia, quando estavam sentados no átrio, de repente Filêmon viu que o corpo de Báucis se revestia de folhagens floridas e que o corpo de Filêmon também se cobria de folhas verdes. Mal puderam dizer adeus um ao outro. Filêmon foi transformado num enorme carvalho e Báucis numa frondosa Tília. As copas e os galhos se entrelaçaram no alto. E assim, abraçados, ficaram unidos para sempre. Os velhos, até hoje, repetem a lição: quem acolhe o peregrino, o estrangeiro e o pobre hospeda a Deus. Quem hospede a Deus se faz templo de Deus. Quem faz dos estranhos seus comensáis herda a imortalidade feliz.

(O conto foi-nos transmitido pelo poeta romano Públio Ovídeo (43-37 d.C). Ele pode ser encontrado no Livro Virtudes para um Outro Mundo Possível, Vol 1, de Leonardo Boff).

27 maio 2012

Matuto de Nascença e de Morrença



Se eu pudesse escolher uma expressão que me definisse, diria que sou matuto, um matuto de nascença e de morrença. Nasci e vivi os meus primeiros anos de vida literalmente no pé da serra, todos os dias saía ao raiar do sol pela estrada empoeirada até o curral do seu Tota, onde enchia a minha vasilha (bem pequenina, proporcional ao meu tamanho) de leite e levava até os meus irmãos menores.

A minha adolescência passei em cidade grande, para os nossos padrões matutos, que na verdade era apenas uma extensão daquela vida da roça. Como cresci nesse mundo, sou um matuto de nascença, só que hoje, vivo nessa metrópole desejando ardentemente terminar todas as tarefas a mim propostas e lá voltar.

Quando eu chegar lá, direi que não me acostumei com os barulhos daqueles carros e motos, com a solidão desses apartamentos, com esses poucos e raros laços de amizade, com a pressa de um povo que corre para lugar nenhum, com a violência que corrói a esperança.

Sentarei novamente na calçada até tarde, rirei das crianças brincando no meio da rua ou correndo da dona Chica que deseja rasgar a bola daqueles pivetes, falaremos de tudo e também de todos. E por volta da meia noite recolheremos nossas cadeiras de balanço, faremos nossas orações, apagaremos as luzes e descansaremos.

Ao amanhecer, não precisarei ter tanta pressa, a qualquer lugar poderei chegar numa caminhada. E assim concluir os dias de minha vida, sendo também um matuto de morrença.

25 abril 2012

Para Viver um Grande Amor


Faz algum tempo que gostaria de publicar em meu blog um texto do poetinha camarada, Vinícius de Moraes. Me identifiquei com esse: Para Se Viver um Grande Amor. Quando lia para uma amiga hoje, ela acabou exclamando: "é, já não existe mais homens como antigamente". 


"Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor".

(Texto extraído do livro "Para Viver Um Grande Amor", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 130.)

09 abril 2012

O Deus Que Surpreende



Imagino o dia em que aquelas três mulheres da história bíblica partiram para o sepulcro de Jesus no intento de ungir o seu corpo morto. Certamente houve um planejamento anterior para que essa tarefa fosse realizada. Acordaram cedo, separaram os melhores perfumes, e então partirem. Ao longo do caminho discutiam sobre quem ajudaria a remover a pedra do sepulcro. Essa tarefa ainda não estava sobre o controle delas. O restante estava tudo certo. O encontro com Jesus, mesmo que morto, já estava marcado, pronto para acontecer.

Entretanto, ao chegaram ao seu destino, a pedra estava removida, ao invés de um corpo morto encontraram um desconhecido. Esse desconhecido lhes contou uma história surpreendente, aquele que elas procuravam entre os mortos não estava lá, pois tinha sido ressuscitado. Todo o planejamento anterior feito por aquelas mulheres foi por água abaixo, Deus as surpreendeu.

Vejo que muitas vezes marcamos os nossos encontros com Deus. Os nossos planos seguem uma lógica que parece impossível dar errado. Determinamos como deve acontecer cada ato no espetáculo da vida. Mas, esquecemos que esse espetáculo não é somente nosso, que nós mesmos desconhecemos diversas cenas que vivenciamos. E em alguns momentos para que tudo termine bem para nós, paradoxalmente é necessário que tudo saia diferente daquilo que esperávamos. Para uma boa caminhada é necessário aprender que andamos com o Deus que surpreendentemente retira algumas pedras do nosso caminho, permitindo que encontremos vida onde esperávamos ver a morte. 

30 março 2012

Se Você Não Sabe Aonde Quer Chegar, Qualquer Caminho Servirá



Não sei qual foi o autor que disse “se você não sabe aonde que chegar, qualquer caminho servirá”. Entretanto, essa parece ser uma das afirmações com um grau altíssimo de verdade. No livro bíblico de Neemias encontramos a determinação de uma pessoa que movida por um sonho, não se deixou levar por circunstâncias que tentavam provar que ele não seria bem sucedido em seu trabalho. Neemias ficou conhecido na história como aquele que reedificou os muros de Jerusalém.

Nesses dias tenho aprendido muito com esse reedificador de muros. Gostaria de poder compartilhar com vocês algumas lições importantes que tenho colocado em prática na minha vida, não na forma e intensidade ideais, mas o primeiro passo já foi dado, o lugar de chegado está sendo escolhido.

A primeira lição que trago com Neemias é sobre a espiritualidade. Diante de todas as situações de dificuldades e soluções aparentemente inviáveis ele simplesmente orava. Não se importunava pelo o que os outros pensassem sobre sua fé. Ele sabia em quem depositar a sua esperança, mas também tinha um conhecimento profundo de quem ele era. A fé de Neemias fazia parte dos seus princípios de vida, e princípios são as bases fundantes do nosso caráter, é o nosso comportamento quando ninguém esta nos vendo. Por isso, a primeira grande lição de Neemias é: Tenha uma fé consistente e princípios bem fundamentados, sem eles você não irá a lugar nenhum.

A segunda lição é seja paciente e não perca as oportunidades que surgirem. Essa é uma das tarefas mais difíceis em nossa vida. Sempre desejamos que as coisas aconteçam ao nosso tempo, não somos pacientes bastantes, e as vezes entendemos o tempo de espera como desperdício. Mas tempo de espera pode ser transformado em tempo de maturação. O período que exercitamos o nosso olhar, nosso falar e o nosso ouvir, forjando em nós uma pessoa com um caráter cada vez melhor. O tempo de espera deve ser usado para treinarmos o nosso olhar, pois quando surgir inovações saberemos interpretá-las como novidades passageiras ou reais oportunidades.

Terceiro, antes de começar um grande projeto é necessário planejar. A história conta que Neemias passeou pela cidade. Caminhando percebeu as dificuldades existentes e o que era necessário a ser feito. Essa é a parte do planejamento. O caminho deve ser planejado para não perdemos tempo na caminhada. Muitas pessoas vivem sem saber onde querem chegar, não tem conhecimento de suas fraquezas e forças. Planejar sua vida é conhecer-se profundamente, exercitar o seu potencial e diminuir as suas fraquezas, caminhar a passos mais largos, pois afinal de contas planejando você sabe aonde quer chegar.

Uma quarta lição que aprendi com Neemias é Encontre Pessoas Motivadas Para Lhe Ajudar. Para encontrar pessoas motivadas, você precisa estar motivado. Mas, estar motivado não significa que você precisa caminhar sozinho. Nenhuma grande tarefa precisa ser realizada sozinha. Mesmo que a sociedade lhe diga para não confiar nas pessoas, acredite nelas, acredite no potencial de mudança de cada ser. Cada pessoa é dotada de dons e talentos magníficos, como eu e você somos.

Concentre-se no que precisa ser feito e não sai antes de concluir a tarefa proposta para cada momento é nossa quinta lição. Planejamos e sonhamos, entretanto na hora da realização de cada tarefa tendemos a nos deixar levar por digressões. Concentre-se, porque “quando pequenas tarefas estão inacabadas, grandes projetos não podem ser concluídos”. Neemias simplesmente renegava convites, assuntos e palavras que pudessem retirar a sua atenção no que estava sendo realizado. Ele tinha um foco bem definido.

Essas são algumas lições que aprendi com história. Está bem resumido, mas que possa também orientar sua caminhada, como tem orientado a minha.

29 fevereiro 2012

Enquanto Caminho, Eu Oro



É difícil escrever sobre oração. Carrego comigo a idéia que só podemos falar com propriedade sobre algo se o vivenciamos. E oração requer muita prática. Não digo que não oro, oro sim, da minha maneira, ao meu tempo, de acordo com o meu relacionamento com Deus.  A minha primeira oração do dia é ainda quando estou deitado: Balbucio as minhas primeiras palavras de agradecimento a Deus, durmo, relaxo, esqueço onde parei, continuo, trago a mente as pessoas amadas, oro por elas, cochilo, relembro os problemas que enfrentarei durante o dia, fico temeroso, oro novamente e encontro calmaria. Depois desse momento é que me levanto.

Em outros dias fico algumas noites acordado em conversa com Deus e reflexões mais intensas. Prefiro o silêncio da madrugada. Ninguém para chamar, nenhum telefone a tocar, sem gritos a procura do vizinho. Nesses momentos me ajoelho, deito, louvo e leio, leio muito a sua palavra. Para mim a leitura bíblica é uma forma de oração, onde me calo e Deus fala. É onde me sinto em “casa”, na casa do Pai.

Samuel Coleridge dizia que ora bem quem ama bem. Foster que a verdadeira oração não vem de cerrarmos os nossos dentes, mas de nos apaixonarmos. Aprendi esses dias algo impactante: Jesus Cristo é o único mediador entre mim e Deus, mas também é o único mediador entre mim e o outro. Sou apaixonado por Jesus, acho incrível seu modelo de vida e sua forma de amar, olho para Ele e afirmo igualmente ao filósofo: tão humano assim só poderia ser Deus. Dessa forma olho para os meus irmãos não através do meu olhar, mas através do olhar de Jesus, e faço dessa ação uma forma de oração.

Em uma leitura em Neemias percebi que nenhum grande projeto pode ser iniciado, desenvolvido e concluído se não existir a oração em todas essas fases. Por isso, enquanto caminho eu oro, com pequenas frases ditas em meu coração: seja em um aperto de mão, no compartilhar de um sorriso quando se conta uma piada, numa discussão séria, em um abraço, na parada do ônibus sozinho, ou ainda sozinho debaixo dos meus lençóis umedecidos por minhas lágrimas e somente com a certeza de que o Senhor é a minha fortaleza, socorro bem presente no momento da angústia. 

24 fevereiro 2012

Plantar uma Árvore, Ter um Filho e Escrever um Livro



Hoje acordei com vontade de plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro.

Plantar uma árvore requer muita paciência e trabalho, porque não é simplesmente chegar e plantar. Tenho que saber o tempo propício, se teremos chuvas ou não, se o buraco onde pretendo plantá-la está na medida correta de suas raízes. É preciso acompanhar o seu crescimento, entender os períodos em que suas folhas estarão secas, e falando em secas, entender o tempo que muitas águas levam a morta dela. É, plantar uma árvore não é fácil, tenho que “saber cuidar” se eu quiser ir em frente nessa empreitada.

Ter um filho parece algo mais fácil e divertido. Entretanto, esse é um caminho mais longo. Quero que o meu filho tenha uma mãe e que essa mãe more comigo, ainda vivo à moda antiga. Então, tenho que amar alguém e ser amado. Ser maduro suficiente para saber viver a dois, e então um dia planejar o nascimento do bruguelinho. Quando este vier à vida, é preciso acompanhar o seu crescimento, entender os períodos de sua vida, saber os tempos que os muitos cuidados apenas atrapalharão o seu desenvolvimento. É, ter um filho não é fácil, tenho que saber cuidar de mim e cuidar do outro na medida certa.

Escrever um livro requer experiências, pois a pior coisa do mundo é falar daquilo que não se vive. Então, nesse período já devo ter a minha árvore e o meu bruguelinho bastante crescidos. Nesse momento começo o planejamento do livro, selecionando as melhores histórias a serem contadas. Depois do planejamento, é só acompanhar o seu desenvolvimento, retirar aquilo que não produziu nenhum aprendizado, saber que algumas histórias são apenas as nossas histórias e que não precisam ser compartilhadas com ninguém. É, escrever um livro pressupõe que eu cuidei muito bem da minha árvore e daqueles que estavam ao meu redor.

Espera, agora percebi, não acordei com vontade nenhuma de plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Apenas acordei com vontade de cuidar de alguém para assim se sentir cuidado. 

01 fevereiro 2012

Desabafo (Anônimo)

(Não conheço quem seja o autor desse poema. Alguns texto na internet falam sobre Clarice Lispector, entretanto acho a escrita um pouco diferente da autora, por isso fico com o anônimo).
Já escondi um amor com medo de perdê-lo, já perdi um amor por escondê-lo. Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso. Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos. Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem. Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir. Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi. Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto. Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir. Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia. Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva. Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse. Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar. Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros. Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz. Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava. Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade... Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais. Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria. Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava. Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda. Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram... Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre. Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração! Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente! Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE! Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes. Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos. Você pode até me empurrar de um penhasco q eu vou dizer:- E daí? EU ADORO VOAR!

14 janeiro 2012

Isto é Prioridade


Não vou dizer que estou em um tempo de mudanças. Creio que como um rio nunca é o mesmo, a nossa vida também não é a mesma que foi minutos atrás. Nesse tempo de mudança, nem tudo o que planejamos sai como o pensado. Não quero dizer que planejamento não é importante, ao contrário, ele deve existir, mas respondendo a seguinte questão: quais são as nossas prioridades? A resposta a essa pergunta determinará o curso do rio da nossa vida.
Esse questionamento surgiu em minha mente em uma conversa com a Dona Maria, que no auge dos seus 80 anos transpira sabedoria. Ela me disse: “meu filho, você está lembrado daquela história em que Samuel é chamado para escolher o novo rei de Israel, entre os filhos de Jessé”? Eu respondi que estava. Então ela pediu-me que fizesse a leitura do texto, já que não conseguia enxergar. Quando terminei, ela fez um comentário: “A frase que mais gosto é quando Samuel diz: “nós não vamos oferecer o sacrifício enquanto ele não vier” (I Samuel 16.11). Para mim, isto é uma questão de prioridade. Samuel tinha que realizar um serviço e não poderia se ocupar com outros fazeres enquanto não o tivesse realizado”.
Depois dessas sábias palavras parei para refletir: quais têm sido as minhas prioridades? É conhecendo-as que poderei planejar a minha vida. A prioridade tem a haver com aquilo nós somos e acreditamos realmente. Fazendo uma relação com a Ética do Caráter, de Stephen Covey, a prioridade está intimamente ligada ao ensino que existe princípios básicos para uma vida proveitosa, e que as pessoas só podem conquistar o sucesso e a felicidade duradoura quando aprendem a integrar estes princípios ao seu caráter básico. Portanto, os princípios que carrego comigo determinarão as prioridades no planejamento da minha vida.
Gostaria de trazer a expressão de Samuel para os nossos dias, substituindo: “nós não vamos oferecer o sacrifício enquanto ele não vier”, para “não sentaremos a mesa, enquanto ele não vier”. Então, determinada a prioridade precisamos ter a mesma perseverança do Samuel: não sentar a mesa, enquanto não concluir o seu serviço. Digo isso, porque muitas vezes determinamos algo em nossas vidas como prioridade, entretanto nos deixamos levar por divagações e ocupações que acabam atrasando o nosso planejamento de vida. Quando assim agimos, precisamos parar e refletir: o que eu planejei realmente tem algo haver com aquilo que sou?
Quando acontecer isso, é hora de obedecer ao provérbio popular que diz: “Explore o seu próprio coração, com toda a diligência, pois dele sairão às respostas da vida”. Se você já conhece as suas prioridades, têm seus princípios de vida determinados, não pode se deixar levar por qualquer vento passageiro da desatenção. Esses ventos já me atrapalharam muito!