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O Evangelho Segundo os Bancos: Digimais, Master e a queda dos impérios de fé.

Foto Ilustrativa


Nesta semana, abri o site UOL e encontrei a seguinte notícia: "Banco do Bispo Edir Macedo preocupa o Fundo Garantidor de Créditos (FGC)." De acordo com o conteúdo da reportagem, o banco Digimais, ligado à Igreja Universal do Reino de Deus e ao Partido Republicanos, opera com patrimônio negativo estimado em R$ 8,5 bilhões. Reportagem da revista Piauí destaca que o Digimais adotaria estratégias semelhantes às do Banco Master, como inflar artificialmente o valor de fundos para melhorar balanços e ampliar a emissão de CDBs.


Semelhante ao Banco Digimais, o Banco Master, já liquidado pelo Banco Central e no centro de uma das maiores crises da república brasileira, possuía ligações com grupos cristãos. No caso do Master, sai a Igreja Universal e entra a Igreja Batista da Lagoinha. A Lagoinha Belvedere, localizada em Belo Horizonte, foi fechada neste mês de março. O pastor líder, Fabiano Zettel, foi preso pela Polícia Federal em uma operação envolvendo o banco. Segundo portais de notícias, a igreja era conhecida pelo alto custo e luxo e foi fechada após escândalos financeiros e denúncias de repasses milionários.


Os últimos anos têm sido difíceis para as comunidades cristãs e suas lideranças por conta do envolvimento político, quase fanático, de lideranças que se utilizam das estruturas desses templos para angariar votos e poder político. Os conflitos se acentuaram de tal forma que, por muitas vezes, há uma visão errônea de que todos os cristãos e cristãs estão mais ao lado de determinadas figuras políticas do que da própria mensagem do evangelho.


Muitas igrejas passaram a ocupar as páginas policiais dos grandes jornais, focando na vida de luxo dos seus membros e na possível utilização das mesmas para a lavagem de dinheiro ilegal. Certamente, muitos cristãos que cresceram ouvindo os louvores dos grupos de louvor da Igreja Batista da Lagoinha deverão ficar decepcionados com as últimas notícias. Os milhares de membros da Igreja Universal do Reino de Deus deveriam estar se perguntando: Jesus abriria um banco para enriquecer a si mesmo?


Esses casos me remetem à passagem bíblica quando Jesus visita o templo de Jerusalém e expulsa todos os comerciantes que estavam naquele local. O templo era o centro da vida religiosa, política e econômica de Jerusalém. Ele era dividido em áreas de crescente santidade, sendo o pátio mais externo, o Pátio dos Gentios, o único lugar onde os não-judeus podiam orar e buscar a Deus. No entanto, esse pátio havia se transformado em um mercado. Ali se vendiam animais (pombas, ovelhas, bois) para os sacrifícios e se trocavam moedas romanas (que tinham a imagem de imperadores considerados divinos) pelo shekel de Tiro, a moeda aceita para o imposto do templo.


Portanto, o único espaço reservado para os não-judeus buscarem a Deus tinha se transformado em um grande mercado. O que importava ali não era a espiritualidade, mas o lucro fácil, enganar o outro. Eles profanaram a “casa de oração”, tornando-a um covil de ladrões, como afirmou o próprio Jesus citando antigos profetas. Havia uma mistura indevida entre fé, poder e interesses econômicos. Acima de tudo, afastava as pessoas de Deus, não as aproximava. Já não havia a casa de oração.


Sempre fui um crítico das práticas de show da fé realizadas por grupos que se apoderaram de maneira indevida do nome de cristãos. Milagres televisionados, sessões de exorcismo nas madrugadas, pedidos de ofertas vergonhosas para alimentar programas de televisão e rádio e ampliar a fortuna dos líderes religiosos. Não era uma casa de oração, mas uma casa de barganha, onde quanto mais você pudesse doar a “Deus”, mais abençoado você seria. Vi essas práticas saírem das igrejas neopentecostais e dominarem as comunidades de fé tradicionais da fé protestante. De repente, não era algo presente apenas na Igreja Universal do Reino de Deus e na Batista da Lagoinha. As diversas denominações e tradições de fé desejam imitar um pouco daquele sucesso.


Hoje vemos uma comunidade cristã dividida e frequentando as páginas policiais. Como Jesus Cristo, precisamos fazer um ato profético e denunciar a corrupção do sistema religioso de nosso tempo, apontando que o verdadeiro encontro com Deus não poderá estar subordinado a uma estrutura de exploração econômica e exclusão social. Esse tipo de igreja é um risco para as famílias, para os mais pobres, para aqueles que estão em maior vulnerabilidade. Ela se afasta da mensagem do evangelho e cria interpretações perigosas em um tempo de desinformação.


Casa de oração para todos os povos. Lugar de acolhimento e respeito. Espaço onde exercemos a espiritualidade de maneira livre e reconhecemos nossas falhas e erros. A igreja deve ser o local onde provamos que primeiro devemos buscar o reino de Deus e a sua justiça, e todas as outras coisas nos serão acrescentadas. Certamente, não podemos confundir igreja com a reunião de mentiras e enganos de alguns grupos religiosos, mais preocupados com os seus bancos e fortunas do que com as boas notícias trazidas por Jesus.


Fortaleza, 21 de março de 2026

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