Quando eu era criança sonhava que poderia mudar estruturas rígidas e preconceituosas das comunidades que eu integrava. Me sentia como alguém chamado por Deus para poder mostrar erros e acertos daqueles que se confessavam como cristãos. Olhando para trás, vejo que esse era um sentimento meio que soberbo e que no cotidiano se eu conseguisse caminhar com algumas pessoas dentro de uma mesma missão, eu já poderia me considerar alguém de sucesso. Com o passar dos anos, eu mais me adequei a instituição que eu fazia parte do que exerci a minha vocação. Nesse quesito há um ponto importante para se ressaltar: calar em meio as injustiças é praticá-las também. Ou como diria o Rev. Desmond Tutu: “Se você fica neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor”.
Certamente as coisas não melhoraram durante os últimos anos e não me tornei a pessoa que eu esperava que eu me tornasse. Digo, não decepcionado comigo mesmo, mas consciente que as estruturas que me rodeavam sempre foram maiores do que eu. Durante essa caminhada aprendi sobre humildade, paciência e empatia. Como também ficou evidente que algumas pessoas estão tão presas as estruturas de poder, que preferem sacrificar outras ao invés de buscar o fim de qualquer desigualdade. Para essas pessoas a instituição “igreja” é muito mais importante do que a “liberdade” que o evangelho provoca. E para manter a sua instituição são capazes de se aliarem com os poderes opressores presentes nesse mundo, mesmo que tenham que criar uma cruzada, se aliando com Herodes, e mandando matar todas as crianças de Belém.
Entretanto, em meio a esse caos planejado sistematicamente, podemos perceber sinais de esperança. Notá-los e nos aliarmos aos seus criadores é de suma importância para conseguirmos superar as trevas que vivemos em nossos dias. Nesse mundo digital que fomos imersos, cheio de mentiras e meias verdades, o laço comunitário precisa ser fortalecido, onde a lembrança dos nossos ancestrais guia-nos a compreensão que todos somos um, habitando uma única casa. Reafirmar esses valores não nos livrará dos conflitos e pode até mesmo intensificá-los. Sendo assim, é preciso que a nossa palavra seja sempre direcionada em favor da vida, da dignidade e da justiça.
Se aprendi algo nesse tempo é que não existo sozinho: “Eu sou porque nós somos”. O meu desejo para os próximos dias é que voltemos aos nossos laços comunitários. Que pratiquemos a escuta do povo necessitado e sedento por justiça. Que nos abramos para a tolerância religiosa e o respeito por cada confissão de fé existente em nossas terras e que estabeleçamos vínculos profundos com essas lideranças. Celebremos a vida, inclusive daqueles que já partiram, e reafirmemos que cada vida é importante nessa casa chamada terra. Sejamos muito melhores do que aqueles que anunciam morte e mentiras. Inauguremos um novo tempo!
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